Das lições da vida
Terça-feira, um dia mais corrido pra mim e tenho somente dois compromissos: Pilates e pintura. Porém, esses dois compromissos, são durante à tarde. Vou ao Pilates e saio rapidamente, para dar tempo de chegar em casa, tomar banho, tomar um café e partir para o próximo compromisso.
Ontem tive que deixar a pressa de lado, pois quando faltava pouco para chegar em casa, vi uma senhora caminhando com dificuldades Ela carregava duas sacolas de compras e se apoiou no muro. Pelo seu andar lento e rígido imaginei que estava com dor nas costas, pois é assim que eu ando quando minha coluna reclama, dou passos curtos , sem mexer muito o corpo para evitar a dor. Com a coluna travada pareço um robozinho.
Fiquei preocupada com aquela senhora. Depois daquele breve descanso, ela deu uns dez passos e se apoiou no muro novamente. Com meu andar rápido, depois de ter minha coluna toda alongada no Pilates, cheguei perto e perguntei se ela estava se sentindo bem. Ela disse que sim, que era dor nas costas. Então me ofereci para carregar suas sacolas e mesmo assim ela andava com dificuldade. Ofereci meu braço para ela se apoiar e assim, fomos em passos lentos, até chegar em sua casa.
Nessa caminhada lenta ela foi me contando suas mazelas, suas dores, suas cirurgias, suas perdas, suas tristezas. Eu ouvi tudo com delicadeza, esperando que aquela mulher sexagenária, pudesse aliviar um pouco da sua dor, se distraindo com seu monólogo. Num repente ela parou de falar, me olhou e disse: "mas eu já passei da minha mãe e da minha irmã, já vivi mais que elas!" Essa triste vitória da sua vida é bem compreensível pra mim, pois também já perdi meus pais. O fato de conseguir viver mais que os outros nos dá uma sensação de que superamos a corrida pela vida.
Enfim chegamos em frente da sua casa, ela disse-me que agora conseguiria levar suas sacolas e iria sentar no sofá, em frente ao ventilador, e descansar. Perguntou então meu nome e falou o seu. Dali avistei o meu prédio e disse a ela onde morava. Ela me contou que seu enteado morava ali e uma amiga também, me agradeceu pela ajuda e entrou
Em passos rápidos completei o resto do caminho, para enfim seguir minha rotina e ir para o meu próximo compromisso. Fiquei por esse curto período pensando naquela senhora e sua situação. Ela tem uma década a mais de vida do que eu. Refleti de como é importante cuidar da saúde e do corpo para não perder a mobilidade. Perdendo a mobilidade acabamos perdendo nossa independência. Também pensei de quantas histórias essa senhora tem para contar, com certeza histórias alegres e outras tristes, como todo ser humano tem. Ela me lembrou um pouco minha mãe, pela sua gentileza e atenção embora minha mãe não costumasse comentar sobre suas dores.
Penso que a vida é boa com alguns momentos difíceis e cabe a nós aprendermos a lidar com eles. Cada dia podemos melhorar e temos que esquecer as comparações. No Pilates vejo pessoas com mais idade que eu, fazendo exercícios muito mais complicados e difíceis, mas eu só posso me comparar comigo e com a minha evolução. Cada corpo carrega sua história, suas limitações e seus avanços. E assim é a vida.
Obs. A imagem que ilustra esse texto é uma pintura de Edgar Degas chamada Melancolia. É incrível como o artista conseguiu colocar tanta expressão de tristeza e dor nessa imagem. Desde a posição do corpo, a posição das mãos, a testa enrugada, os olhos meio cerrados e a boca entreaberta.
