domingo, 18 de agosto de 2024

Família


 Família. No dicionário, há duas definições: o conjunto de parentes de uma pessoa ou o grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto. Essa palavra me traz lembranças da minha infância, especialmente dos domingos dos anos 70. Naquela época, ainda não existiam garrafas plásticas, e meu pai aos domingos, sempre saía para buscar uma Coca-Cola, levava o casco de vidro de um litro para pagar menos. Era um litro para cinco pessoas: meus pais, meus irmãos e eu. Às vezes, tinha frango assado, e meu irmão e eu sempre queríamos comer o coração para “ficarmos com dois corações”. Colocávamos o osso do peito para secar ao sol e, para decidir a sorte. Sempre havia uma disputa saudável entre meu irmão mais velho e eu. Eu o imitava em tudo; até hoje, tomo café preto porque ele começou a tomar, e eu queria fazer igual.

    Voltando ao dicionário, a segunda definição de família são as pessoas que moram na mesma casa. Hoje, moro sozinha. Então, eu sou a minha família. É domingo, e não terei a Coca-Cola, o frango, os pais, os irmãos e as disputas da infância. Mas isso não me entristece. Aprendi que cada fase da vida tem seus encantos. Não posso voltar ao passado nem pular para o futuro; só posso fazer o meu melhor agora.

    Quem sabe, um dia, em uma casa de repouso, eu me lembre de como eram bons os meus domingos quando morava sozinha. Mesmo assim, eu fazia um almoço caprichado. Preparava água saborizada, usava um  prato bonito, taça, guardanapo de pano, flores na mesa. Eu aproveitava a minha companhia silenciosa e agradável. Eram momentos de calma e autocuidado. Colocava uma música que gostava e saboreava cada garfada como se estivesse em um restaurante chique. Um agrado para mim mesma, essa pessoa tão especial de quem tenho tanto orgulho. Superou tantas dificuldades e, hoje, pode usufruir dessa paz e felicidade.

    A gente se esquece de valorizar o momento presente e sempre acha que a felicidade está no passado ou que talvez a encontrará no futuro. No domingo passado, almocei em um restaurante com meus filhos e netos. Foi um momento muito bom, com a família reunida. Hoje, sou a minha família. Estou feliz por estar aqui, por enxergar, poder escrever, por poder desfrutar do meu almoço sozinha. Quantas vezes desejei almoçar em paz e não podia? Mas essa é outra história.

    Valorizo muito, mas muito mesmo, a vida que tenho. Amo minha vida, amo a mim mesma e amo cada momento que passo na minha própria companhia.

    

domingo, 4 de agosto de 2024

COISAS SIMPLES

 


Hoje é domingo. Estou aqui, sentada, tomando meu café, e meus olhos se perdem no vaso de flores lindas que comprei para enfeitar meu apartamento. Todo fim de semana, eu o decoro, e as flores duram bastante, trazendo uma alegria especial para mim. Apesar de estar sozinha, não me sinto só; hoje, estou imensamente feliz.


Enquanto saboreio meu café da manhã, reflito sobre o quanto sempre amei esses momentos de calma e tranquilidade. Pensar no meu dia e no que farei sempre foi essencial para mim. Quando eu trabalhava, era difícil encontrar tempo, mas sempre arranjava pelo menos 10 a 15 minutos para sentar e apreciar meu café calmamente, mesmo que isso significasse acordar mais cedo. Esse pequeno ritual era meu refúgio em meio à correria.


Cada gole de café me traz uma sensação de conforto e de conexão com o presente. As flores não são apenas enfeites; elas são testemunhas silenciosas dos meus pensamentos, dos meus sonhos e das minhas lembranças. Elas me lembram que a beleza pode ser encontrada nas coisas simples e que o cuidado e a atenção que dedicamos a nós mesmos são preciosos.


Agora que estou aposentada, a vida ganhou um ritmo diferente, mais suave e contemplativo. Posso apreciar cada detalhe do meu dia, desde o aroma do café recém-passado, a mesa bem arrumada, as flores e até o burburinho dos vizinhos nas suas rotinas diárias.Meu apartamento, com suas flores e seus cantos tranquilos, se tornou um refúgio de serenidade.


Escrever em meu caderno é um ritual que alimenta minha alma. Nele, eu faço planos, traço metas e revisito memórias que aquecem meu coração. Não sinto falta de companhia porque, nesse espaço íntimo, encontro uma profunda conexão comigo mesma. Minhas palavras são minhas conversas, minhas listas são meus projetos, e minhas lembranças são minhas histórias.


A vida, com seus altos e baixos, me ensinou a valorizar esses momentos de introspecção e auto-cuidado. Cada dia é uma nova oportunidade de descobrir algo novo sobre mim mesma, de explorar meus sentimentos e de planejar o futuro com esperança e entusiasmo. E é nesse café da manhã tranquilo que encontro a força e a inspiração para continuar.


Aos 56 anos, carrego comigo uma bagagem rica de experiências e aprendizados. E, embora a vida tenha mudado, a essência de quem sou permanece firme. Continuo amando os pequenos prazeres, como tomar café calmamente, e espero poder desfrutar desses momentos por muitos anos ainda.



Que minhas flores continuem a alegrar, que meu café continue quente e reconfortante, e que eu nunca perca essa capacidade de encontrar alegria nas coisas simples. Porque, no fim das contas, são esses pequenos momentos que tornam a vida verdadeiramente especial.