domingo, 18 de maio de 2025

Enxoval

       Eu fui uma adolescente dos anos 80 e sim, eu fiz um enxoval.  Quando fiz 12 anos o meu Opa, exímio marceneiro, construiu um baú para mim e também para minhas primas. Era um baú para guardar o nosso enxoval. Fazer um enxoval era uma tradição entre as mulheres, essencial para ter o conforto em sua casa, quando se casasse. 

    Eu e minhas primas, tínhamos o hábito de abrir nossos baús,  fabricados por nosso avô, e exibir a quantidade de itens ali guardado. Os presentes ganhos em aniversários e Natal já vinham com a frase:  "Guarde para o teu enxoval".  Naquele baú tão significativo a gente guardava os presentes e também nossos sonhos mais felizes e a esperanças de um matrimônio eterno. Cada item era a  certeza que teríamos um lar cheio de beleza em forma de objetos. O pano de prato com barrado de crochê que eu ganhei da Oma era guardado com carinho no meu baú. O  jogo de lençóis de cetim que ganhei da minha mãe,  a toalha de mesa que ganhei no Natal os potes da Tupperware que minha tia revendia e me presenteava com carinho. Tudo se acomodava perfeitamente naquela grande caixa de madeira envernizada.

   Cada vez que eu abria aquele baú, sentia um orgulho muito grande em estar construindo um futuro cheio de coisas belas. Cada pano de prato era aberto, para ser admirado, dobrado com suspiros e guardado com sorrisos, imaginando as lindas louças que ele iria secar depois de uma refeição regada com amor e palavras de afeição. Cada fronha era alisada com minhas mãos jovens, imaginando uma cama arrumada com os sonhos de uma noite estrelada. E eu seguia constantemente , naquela tarefa alegre de desdobrar e dobrar aqueles tecidos  impregnados de emoções e cheiro de naftalina.

  Sentia uma felicidade incrível, enquanto contava quantas peças eu já tinha, o que faltava adquirir e torcendo que no próximo aniversário ou Natal pudesse ganhar aquele item precioso. Guardo com carinho essas lembranças de ter tido um baú de sonhos. Um baú que não guardava só objetos, mas intenções de uma vida feliz.

    Meu baú do enxoval não chegou nem na metade, pois casei muito cedo e não tive tempo de ter todos os itens necessários. Acabou sendo um baú para guardar roupas e cobertas que não cabiam no guarda-roupas. Hoje em dia, meu baú de enxoval, está com  minha filha, que também não usa para o fim que tinha sido destinado.

 Aqueles enxovais, construídos de sonhos, esperanças e emoções da minha adolescência, já não existem mais.  Hoje em dia é muito fácil comprar tudo pronto. Os sonhos vêm embalados em plásticos.  Perderam aquele significado.  São outros tempos e outros sonhos. Casamentos não são tão importantes como na época. Acho que minha geração foi a última, em que,  o sonho da maioria das moças era casar, ter sua casa, seus filhos e trabalhar para "ajudar" nas despesas.

     Ainda bem que os tempos mudaram. As mulheres podem sonhar diferente, ter outras ambições, que não seja só um marido, filhos e um lar. As mulheres podem ter seus próprios sonhos, construir a vida como elas quiserem. Podem inclusive ter um baú de sonhos e um enxoval. 

    O meu enxoval se perdeu na modernidade e eu fiquei só com as lembranças.