domingo, 14 de setembro de 2025

A JORNADA DE 1300 DIAS

   


 Foi no dia seguinte do meu aniversário de 54 anos que tomei a decisão que mudou completamente a minha vida. Acredito que o universo conspirou para que eu chegasse até aqui, e se passaram 1300 dias. Deixei para trás uma vida, um lugar, uma história e muitos sonhos. Não sabia muito bem o que eu queria para mim, mas sabia o que não queria mais. Foi como viver um luto: um sonho lindo que havia sido construído por anos… e que morreu. Minhas escolhas, minhas decisões e outros acontecimentos levaram a esse fim.

    Lembro que, quando saí do sítio onde morava, não conseguia parar de chorar. Era muita dor. Vi minhas orquídeas amarradas na aroeira, cheias de botões que eu não veria desabrocharem. Minha horta mandala, tão sonhada e produtiva, meu espiral de ervas, o cheiro do manjericão e o doce das folhas de stévia… tudo ficando para trás. Os vasos de barro que eu havia impermeabilizado e fariam parte da fonte que eu queria construir. Eu sonhava em escutar o barulho da água enquanto estivesse na varanda, lendo ou escrevendo, já imaginava os passarinhos bebendo água e se banhando na fonte.

    Tive que me despedir das margaridas floridas, minha flor preferida eque agora eu não veria mais. Lembro que dei uma última olhada na casa de madeira, pequena e aconchegante, com todos os móveis planejados. A casa dos sonhos. Adeus às árvores frutíferas que deixei para trás, sem ao menos provar dos seus frutos. Adeus a cada pedacinho daquele lugar que ajudei a construir. 

 

    Parei várias vezes antes de chegar ao portão. Passar por ele foi dolorido, mas eu não podia voltar. Eu precisava transformar toda a minha desilusão e dor em força para sustentar a decisão de partir. E fui. Arrasada, triste, chorando, mas sabendo que aquela era a atitude certa e que não teria volta. Poderia ter ficado ali sozinha. Tive essa opção. Mas na prática, seria muito difícil cuidar e manter tudo sozinha. Além disso, eu tinha planos maiores para o meu futuro.

    Os primeiros dias longe daquele que tinha sido o meu lar, foram muito difíceis. As semanas e meses seguintes, tristes, desafiadores, solitários. Era um deserto que eu teria de atravessar. Não havia como voltar, então eu segui. Muitos dias sem vontade de sair da cama, sem vontade de nada. Eu sabia que só o tempo poderia me ajudar. Precisava ter paciência com todos os meus sentimentos: tristeza, raiva, decepção. Tive apoio da família e das amigas e isso foi fundamental para minha travessia.

    Foi muito difícil e trabalhoso achar um novo lar numa nova cidade. Difícil também comprar os móveis que faltavam, organizar a mudança, correr atrás de internet, da instalação do ar-condicionado. Tantas decisões para tomar. Dessa vez eu tinha que fazer tudo sozinha. Era hora de construir um novo sonho, fazer escolhas, me desafiar, vencer o medo.

    Vieram meus móveis antigos, carregados de história, que se alinharam com os novos, cheios de sonhos. Eu estava gostando de arrumar meu novo cantinho da maneira que eu queria. Momentos de alegria e felicidade começaram a surgir em cada conquista e em cada medo vencido. Logo me ocupei com longas caminhadas na praia, passeios de bicicleta, o curso de pintura, pilates, dança cigana. Comecei também uma nova faculdade de artes. 

    A arte me ajudou a superar toda a tristeza e desilusão. Transformei minha tristeza e minhas memórias em telas. Cada pintura virou um pedaço de mim. A arte me levou para caminhos inimagináveis como viagens, exposições, premiações. Comecei a mergulhar na minha trajetória artística e nas minhas conquistas.

 
A vida me mostrou que nunca é tarde para recomeçar, para reinventar-se e que caminhar sozinha não é solidão. É liberdade. É amor-próprio. É vida que renasce. Sigo me reconstuindo sempre. A vida não pára e eu ainda tenho muitos sonhos para conquistar,