Estou aqui
ouvindo a música Vou Recomeçar, de Gal Costa. Fiquei refletindo sobre o quanto
somos inconformados com a vida. Nos parece que nunca estamos na fase da vida
onde seremos felizes, completos e plenos.
Sempre me
parecia que a felicidade estava no depois. Depois que eu terminar a faculdade,
depois que os filhos crescerem, depois que eu mudar de emprego, de cidade,
depois que me aposentar... Assim eu
pensava que um dia seria feliz, quando as condições fossem perfeitas.
Atualmente, na
minha visão, de mulher com mais de cinco décadas de vida, a felicidade são
momentos e geralmente, esse sentimento está dentro da gente. É uma sensação
que carregamos perante os fatos da vida. Também acho que a felicidade tem uma relação
muito grande com a gratidão.
Tem uma oração
muito linda, do Divaldo Franco, que se chama Gratidão, vou deixar ela no final
desse texto. É um poema psicografado de agradecimento por todos aspectos da
vida. Eu tenho comigo, que sempre temos algo para agradecer, até no meio do
caos e das adversidades da vida. Afinal a vida não é uma linha reta. Hoje posso
estar feliz e tranquila, mas no próximo instante pode o telefone tocar com uma notícia
ruim, posso ter um revés, ficar doente...
Não temos
controle em tudo. O futuro nos reserva coisas que nem sabemos. Tem um dizer de
um poeta e filósofo romano chamado Horácio, “Carpe Diem” aproveite o dia e
confia o mínimo possível no amanhã.
Rubem Alves,
de quem eu tive a oportunidade de assistir duas palestras, contava uma parábola
zen budista sobre morangos e abismo. É sobre um homem, pendurado em um cipó num
abismo, o cipó estava se rompendo e o homem viu um arbusto com morangos
maduros. Certo da sua morte, ele pegou um morango e saboreou com satisfação. Que
haja morangos em nossos abismos e possamos desfrutar de pequenos momentos de
felicidade que a vida nos apresenta.
No meu primeiro
dia férias de julho de 2014 eu estava saindo de casa para fazer fisioterapia no
centro em Joinville e planejando fazer algum passeio depois. Antes de sair o
telefone tocou avisando do falecimento de minha mãe. No meu aniversário de 54
anos eu estava feliz e preparei uma pequena recepção para a família. Tudo deu
errado nesse dia. No dia seguinte eu saí de casa e fui morar sozinha em outra
cidade.
Tantas outras
coisas aconteceram na minha vida que mudaram drasticamente meus planos. Tudo isso
me fez ver o quanto a vida nos surpreende e que temos que aproveitar cada
momento, principalmente com as pessoas que amamos.
Minha mãe me deixou muitas lições de vida. Uma delas é perdoar, mesmo estando com razão. Ela dizia: melhor ser feliz do que ter razão. Outra coisa é ver o lado bom das coisas. Acho incrível como minha mãe sempre tinha uma solução para cada situação difícil. Uma vez ficamos hospedados numa casa num rio e só tinha margarina para passar no pão, ela salpicou açúcar em cima do pão e deu para os meus filhos pequenos dizendo que era pão de carneirinho. Por muito tempo depois eles ainda me pediam o pão de carneirinho da vó. Lembro que quando não podíamos brincar fora de casa ela deixava a gente montar barracas com os lençóis e cobertores para brincar dentro de casa. Quando algo planejado dava errado ela já vinha com alguma justificativa plausível para nos conformar. Minha mãe sempre tinha morangos nos abismos.
Aprendi muito
com minha mãe a ver o lado bom das coisas. Sinto que isso me faz mais feliz. Também
acredito que o tempo ajuda a resolver muitos problemas. Que a fé e a oração têm
uma força e um poder divino imensurável e que a vida presta.
PRECE DE GRATIDÃO
Autora: Amélia Rodrigues
Psicografia: Divaldo Franco
Senhor,
muito obrigado, pelo que me deste, pelo que me dás!
pelo ar, pelo pão, pela paz!
Muito
obrigado, pela beleza que meus olhos vêem no altar da natureza.
Olhos que
contemplam o céu cor de anil, e se detém na terra verde, salpicada de flores em
tonalidades mil!
Pela
minha faculdade de ver, pelos cegos eu quero interceder, por aqueles que vivem
na escuridão e tropeçam na multidão, por eles eu oro e a Ti imploro
comiseração, pois eu sei que depois dessa lida, numa outra vida, eles
enxergarão!
Senhor,
muito obrigado pelos ouvidos meus.
Ouvidos que ouvem o tamborilar da chuva no telheiro, a melodia do vento nos
ramos do salgueiro, a dor e as lágrimas que escorrem no rosto do mundo inteiro.
Ouvidos que ouvem a música do povo, que desce do morro na praça a cantar.
A melodia dos imortais que a gente ouve uma vez e não se esquece nunca mais.
Diante de
minha capacidade de ouvir,
pelos surdos eu te quero pedir, pois eu sei, que depois desta dor, no teu reino
de amor, eles voltarão a ouvir!
Muito
obrigado Senhor, pela minha voz!
Mas também pela voz que canta, que ensina, que consola.
Pela voz que com emoção, profere uma sentida oração!
Pela minha capacidade de falar, pelos mudos eu Te quero rogar, pois eu sei que
depois desta dor, no teu reino de amor, eles também cantarão!
Muito
obrigado Senhor, pelas minhas mãos, mas também pelas mãos que aram, que semeiam,
que agasalham.
Mãos de caridade, de solidariedade. Mãos que apertam mãos.
Mãos de poesias, de cirurgias, de sinfonias, de psicografias, mãos que numa
noite fria, cuida ou lava louça numa pia.
Mãos que a beira de uma sepultura, abraça alguém com ternura, num momento de
amargura.
Mãos que no seio, agasalham o filho de um corpo alheio, sem receio.
E meus
pés que me levam a caminhar, sem reclamar.
Porque eu vejo na Terra amputados, deformados, aleijados…e eu posso bailar!!…
Por eles eu oro, e a ti imploro, porque eu sei que depois dessa expiação, numa
outra situação,
eles também bailarão.
Por fim
Senhor, muito obrigado pelo meu lar!
Pois é tão maravilhoso ter um lar…
Não importa se este lar é uma mansão, um ninho, uma casa no caminho, um
bangalô, seja lá o que for!
O importante é que dentro dele exista a presença da harmonia e do amor!
O amor de mãe, de pai, de irmão, de uma companheira…
De alguém que nos dê a mão, nem que seja a presença de um cão, porque é tão
doloroso viver na solidão!
Mas se eu ninguém tiver, nem um teto para me agasalhar, uma cama para eu
deitar, um ombro para eu chorar, ou alguém para desabafar…, não reclamarei, não
lastimarei, nem blasfemarei.
Porque eu
tenho a Ti!
Então muito obrigado porque eu nasci!
E pelo
teu amor, teu sacrifício, tua paixão por nós,
Muito
obrigado Senhor!