domingo, 30 de novembro de 2025

SOBRE MORANGOS E ABISMOS



Estou aqui ouvindo a música Vou Recomeçar, de Gal Costa. Fiquei refletindo sobre o quanto somos inconformados com a vida. Nos parece que nunca estamos na fase da vida onde seremos felizes, completos e plenos.

Sempre me parecia que a felicidade estava no depois. Depois que eu terminar a faculdade, depois que os filhos crescerem, depois que eu mudar de emprego, de cidade, depois que me aposentar...  Assim eu pensava que um dia seria feliz, quando as condições fossem perfeitas.

Atualmente, na minha visão, de mulher com mais de cinco décadas de vida, a felicidade são momentos e geralmente, esse sentimento está dentro da gente. É uma sensação que carregamos perante os fatos da vida. Também acho que a felicidade tem uma relação muito grande com a gratidão.

Tem uma oração muito linda, do Divaldo Franco, que se chama Gratidão, vou deixar ela no final desse texto. É um poema psicografado de agradecimento por todos aspectos da vida. Eu tenho comigo, que sempre temos algo para agradecer, até no meio do caos e das adversidades da vida. Afinal a vida não é uma linha reta. Hoje posso estar feliz e tranquila, mas no próximo instante pode o telefone tocar com uma notícia ruim, posso ter um revés, ficar doente...

Não temos controle em tudo. O futuro nos reserva coisas que nem sabemos. Tem um dizer de um poeta e filósofo romano chamado Horácio, “Carpe Diem” aproveite o dia e confia o mínimo possível no amanhã.

Rubem Alves, de quem eu tive a oportunidade de assistir duas palestras, contava uma parábola zen budista sobre morangos e abismo. É sobre um homem, pendurado em um cipó num abismo, o cipó estava se rompendo e o homem viu um arbusto com morangos maduros. Certo da sua morte, ele pegou um morango e saboreou com satisfação. Que haja morangos em nossos abismos e possamos desfrutar de pequenos momentos de felicidade que a vida nos apresenta.

No meu primeiro dia férias de julho de 2014 eu estava saindo de casa para fazer fisioterapia no centro em Joinville e planejando fazer algum passeio depois. Antes de sair o telefone tocou avisando do falecimento de minha mãe. No meu aniversário de 54 anos eu estava feliz e preparei uma pequena recepção para a família. Tudo deu errado nesse dia. No dia seguinte eu saí de casa e fui morar sozinha em outra cidade.

Tantas outras coisas aconteceram na minha vida que mudaram drasticamente meus planos. Tudo isso me fez ver o quanto a vida nos surpreende e que temos que aproveitar cada momento, principalmente com as pessoas que amamos.

Minha mãe me deixou muitas lições de vida. Uma delas é perdoar, mesmo estando com razão. Ela dizia: melhor ser feliz do que ter razão. Outra coisa é ver o lado bom das coisas. Acho incrível como minha mãe sempre tinha uma solução para cada situação difícil. Uma vez ficamos hospedados numa casa num rio e só tinha margarina para passar no pão, ela salpicou açúcar em cima do pão e deu para os meus filhos pequenos dizendo que era pão de carneirinho. Por muito tempo depois eles ainda me pediam o pão de carneirinho da vó. Lembro que quando não podíamos brincar fora de casa ela deixava a gente montar barracas com os lençóis e cobertores para brincar dentro de casa. Quando algo planejado dava errado ela já vinha com alguma justificativa plausível para nos conformar.  Minha mãe sempre tinha morangos nos abismos. 

Aprendi muito com minha mãe a ver o lado bom das coisas. Sinto que isso me faz mais feliz. Também acredito que o tempo ajuda a resolver muitos problemas. Que a fé e a oração têm uma força e um poder divino imensurável e que a vida presta.


PRECE DE GRATIDÃO

 Autora: Amélia Rodrigues

Psicografia: Divaldo Franco

 

Senhor, muito obrigado, pelo que me deste, pelo que me dás!
pelo ar, pelo pão, pela paz!

Muito obrigado, pela beleza que meus olhos vêem no altar da natureza.

Olhos que contemplam o céu cor de anil, e se detém na terra verde, salpicada de flores em tonalidades mil!

Pela minha faculdade de ver, pelos cegos eu quero interceder, por aqueles que vivem na escuridão e tropeçam na multidão, por eles eu oro e a Ti imploro comiseração, pois eu sei que depois dessa lida, numa outra vida, eles enxergarão!

Senhor, muito obrigado pelos ouvidos meus.
Ouvidos que ouvem o tamborilar da chuva no telheiro, a melodia do vento nos ramos do salgueiro, a dor e as lágrimas que escorrem no rosto do mundo inteiro.
Ouvidos que ouvem a música do povo, que desce do morro na praça a cantar.
A melodia dos imortais que a gente ouve uma vez e não se esquece nunca mais.

Diante de minha capacidade de ouvir,
pelos surdos eu te quero pedir, pois eu sei, que depois desta dor, no teu reino de amor, eles voltarão a ouvir!

Muito obrigado Senhor, pela minha voz!
Mas também pela voz que canta, que ensina, que consola.
Pela voz que com emoção, profere uma sentida oração!
Pela minha capacidade de falar, pelos mudos eu Te quero rogar, pois eu sei que depois desta dor, no teu reino de amor, eles também cantarão!

Muito obrigado Senhor, pelas minhas mãos, mas também pelas mãos que aram, que semeiam, que agasalham.
Mãos de caridade, de solidariedade. Mãos que apertam mãos.
Mãos de poesias, de cirurgias, de sinfonias, de psicografias, mãos que numa noite fria, cuida ou lava louça numa pia.
Mãos que a beira de uma sepultura, abraça alguém com ternura, num momento de amargura.
 Mãos que no seio, agasalham o filho de um corpo alheio, sem receio.

E meus pés que me levam a caminhar, sem reclamar.
Porque eu vejo na Terra amputados, deformados, aleijados…e eu posso bailar!!…
Por eles eu oro, e a ti imploro, porque eu sei que depois dessa expiação, numa outra situação,
eles também bailarão.

Por fim Senhor, muito obrigado pelo meu lar!
Pois é tão maravilhoso ter um lar…
Não importa se este lar é uma mansão, um ninho, uma casa no caminho, um bangalô, seja lá o que for!
O importante é que dentro dele exista a presença da harmonia e do amor!
O amor de mãe, de pai, de irmão, de uma companheira…
De alguém que nos dê a mão, nem que seja a presença de um cão, porque é tão doloroso viver na solidão!
Mas se eu ninguém tiver, nem um teto para me agasalhar, uma cama para eu deitar, um ombro para eu chorar, ou alguém para desabafar…, não reclamarei, não lastimarei, nem blasfemarei.

Porque eu tenho a Ti!
Então muito obrigado porque eu nasci!

E pelo teu amor, teu sacrifício, tua paixão por nós,

Muito obrigado Senhor!

domingo, 14 de setembro de 2025

A JORNADA DE 1300 DIAS

   


 Foi no dia seguinte do meu aniversário de 54 anos que tomei a decisão que mudou completamente a minha vida. Acredito que o universo conspirou para que eu chegasse até aqui, e se passaram 1300 dias. Deixei para trás uma vida, um lugar, uma história e muitos sonhos. Não sabia muito bem o que eu queria para mim, mas sabia o que não queria mais. Foi como viver um luto: um sonho lindo que havia sido construído por anos… e que morreu. Minhas escolhas, minhas decisões e outros acontecimentos levaram a esse fim.

    Lembro que, quando saí do sítio onde morava, não conseguia parar de chorar. Era muita dor. Vi minhas orquídeas amarradas na aroeira, cheias de botões que eu não veria desabrocharem. Minha horta mandala, tão sonhada e produtiva, meu espiral de ervas, o cheiro do manjericão e o doce das folhas de stévia… tudo ficando para trás. Os vasos de barro que eu havia impermeabilizado e fariam parte da fonte que eu queria construir. Eu sonhava em escutar o barulho da água enquanto estivesse na varanda, lendo ou escrevendo, já imaginava os passarinhos bebendo água e se banhando na fonte.

    Tive que me despedir das margaridas floridas, minha flor preferida eque agora eu não veria mais. Lembro que dei uma última olhada na casa de madeira, pequena e aconchegante, com todos os móveis planejados. A casa dos sonhos. Adeus às árvores frutíferas que deixei para trás, sem ao menos provar dos seus frutos. Adeus a cada pedacinho daquele lugar que ajudei a construir. 

 

    Parei várias vezes antes de chegar ao portão. Passar por ele foi dolorido, mas eu não podia voltar. Eu precisava transformar toda a minha desilusão e dor em força para sustentar a decisão de partir. E fui. Arrasada, triste, chorando, mas sabendo que aquela era a atitude certa e que não teria volta. Poderia ter ficado ali sozinha. Tive essa opção. Mas na prática, seria muito difícil cuidar e manter tudo sozinha. Além disso, eu tinha planos maiores para o meu futuro.

    Os primeiros dias longe daquele que tinha sido o meu lar, foram muito difíceis. As semanas e meses seguintes, tristes, desafiadores, solitários. Era um deserto que eu teria de atravessar. Não havia como voltar, então eu segui. Muitos dias sem vontade de sair da cama, sem vontade de nada. Eu sabia que só o tempo poderia me ajudar. Precisava ter paciência com todos os meus sentimentos: tristeza, raiva, decepção. Tive apoio da família e das amigas e isso foi fundamental para minha travessia.

    Foi muito difícil e trabalhoso achar um novo lar numa nova cidade. Difícil também comprar os móveis que faltavam, organizar a mudança, correr atrás de internet, da instalação do ar-condicionado. Tantas decisões para tomar. Dessa vez eu tinha que fazer tudo sozinha. Era hora de construir um novo sonho, fazer escolhas, me desafiar, vencer o medo.

    Vieram meus móveis antigos, carregados de história, que se alinharam com os novos, cheios de sonhos. Eu estava gostando de arrumar meu novo cantinho da maneira que eu queria. Momentos de alegria e felicidade começaram a surgir em cada conquista e em cada medo vencido. Logo me ocupei com longas caminhadas na praia, passeios de bicicleta, o curso de pintura, pilates, dança cigana. Comecei também uma nova faculdade de artes. 

    A arte me ajudou a superar toda a tristeza e desilusão. Transformei minha tristeza e minhas memórias em telas. Cada pintura virou um pedaço de mim. A arte me levou para caminhos inimagináveis como viagens, exposições, premiações. Comecei a mergulhar na minha trajetória artística e nas minhas conquistas.

 
A vida me mostrou que nunca é tarde para recomeçar, para reinventar-se e que caminhar sozinha não é solidão. É liberdade. É amor-próprio. É vida que renasce. Sigo me reconstuindo sempre. A vida não pára e eu ainda tenho muitos sonhos para conquistar,

  













domingo, 17 de agosto de 2025

Eu descobri minha força


   Essa semana a internet nos bombardeou com assuntos como adultização e feminicídio. Impossível ficar alheia a tudo isso com tanta informação. Me levou a refletir sobre os dois assuntos e de como a sociedade muda em passos lentos. 

      Eu que já vivi mais de meio século, passei por muitas mudanças. Nasci e cresci na ditadura, embora não tinha muita noção disso. Como mulher tinha poucos sonhos: casar, ter uma família, uma casa pra cuidar, um emprego pra "ajudar" o marido. Os sonhos eram poucos, pois não nos era permitido sonhar grande.

       Se não casasse antes dos trinta ficava taxada como solteirona, se ficasse grávida antes do casamento era mal falada, se tivesse filho sem casar era mãe solteira e não prestava. Foi assim que cresci. E justo eu, fiquei grávida aos quinze anos, antes de casar. O casamento foi obrigatório, por assim dizer, mas eu queria também. O que uma adolescente de quinze anos sabe da vida? Quase nada.

    Fico pensando nas leis absurdas que podaram as mulheres. A mulher era tratada como criança. Basta ver filmes e novelas mais antigos para ter uma ideia de como as coisas eram.

  Isso não é um discurso feminista, é sobre direitos e deveres de qualquer cidadão brasileiro. Me revolta pensar que o homem podia matar a esposa e não ser preso, por alegar legítima defesa da honra. Apesar de não estar mais no código penal desde 1940, essa justificativa foi utilizada até 2023 quando foi declarada inconstitucional. Essa justificativa só valia para os homens. Essa e tantas outras leis que privaram as mulheres do direito de trabalhar, estudar, votar, se candidatar, se divorciar...

   E se as mulheres tem os mesmos direitos, também tem os mesmos deveres? Já ouvi dizer que mulher então, tem que servir o exército, ir pra guerra e fazer o mesmo trabalho que homem faz. Bom, foi um homem que assinou a lei de serviço militar obrigatório para homens, o presidente Afonso Pena em 1908. Deixaram as mulheres de fora por considerarem incapazes e inadequadas. Somente em 1980 permitiram a entrada de mulheres no serviço militar,de forma voluntária,  e pra atuar em poucas áreas como saúde e logística. Quem assinou, em 1980, foi outro homem, o presidente José Sarney. Ou seja, a mulher é frágil demais para a guerra, mas forte para parir e criar os filhos.

    Sobre trabalho pesado vejo uma visão distorcida de uma sociedade que mede o valor de uma pessoa pela capacidade física, ignorando a inteligência, a sensibilidade, a resistência emocional, entre tantas formas de força feminina. Será que o peso de um saco de cimento é maior do que o de criar os filhos quase sempre sozinhas? Não é questão de igualar a constituição corporal e sim direitos. Força não é somente músculos.

   Eu descobri minha força quando fui mãe adolescente e tive que cuidar da minha filha, passando noites sem dormir e levantar cedo para ir às aulas do ensino médio.

   Eu descobri minha força quando comecei a lecionar com 17 anos, uma filha de dois anos e grávida novamente. Além de trabalhar fora e ser mãe, também ficava com todo serviço da casa sozinha: lavar, passar, limpar, cozinhar...

    Eu descobri a minha força quando com 25 anos comecei a faculdade, pois tive que esperar os filhos crescerem, trabalhava em dois empregos, em cidades diferentes e viajava toda noite para outra cidade para estudar.

     Eu descobri minha força maior ainda quando saí de um relacionamento violento, tóxico e narcisista deixando tudo pra trás em busca da minha paz.

       Força eu descubro todos os dias quando eu vejo que, como tantas mulheres, a vida não foi fácil mas todas adversidades construíram a mulher que sou hoje. 

         E para finalizar, eu acredito que a geração nascida no século XXI, tenha uma visão mais igualitária. Quando converso com meus netos, sinto que muitos preconceitos que tínhamos, já estão se acabando. Vejo também muitos absurdos dessa nova geração, que minha educação e visão de mundo não conseguem entender ou aceitar. Talvez eu esteja velha demais para compreender, mas procuro não julgar o que não entendo. Procuro sim, ler e me atualizar sobre a sociedade e suas mudanças e assim não ser injusta com minhas colocações.

 A vida segue.





domingo, 10 de agosto de 2025

Brevidade da Vida


       Nos últimos tempos a minha vida pacata ficou mais agitada. Tenho ido para Joinville com muita frequência para médicos e exames de rotina e também para rever amizades e lugares. Estas idas e vindas me proporcionaram muitas experiências inusitadas. Nunca conversei com tantas pessoas diferentes: minha médica nova, a recepcionista do consultório, os motoristas de aplicativos, a senhora que esperava na rodoviária comigo e a outra que sentou do meu lado no ônibus, a idosa que ajudei a descer do ônibus e carreguei a sua mala pesada até o destino, a atendente do plano de saúde, o cardiologista que me acompanha há anos, o amigo da amiga, que eu não conhecia, um amigo que não via há quase três décadas, a vendedora da loja, a anfitriã do Airbnb, o segurança do prédio, a vizinha do apartamento, as amigas de faculdade e trabalho... Foram tantas pessoas, tantas histórias diferentes, tantas vidas, alegrias e problemas. Cada história de vida daria um texto ou um livro. Mas a história de vida  que eu tenho mais conhecimento é a minha. Minha história é muito tortuosa. Uma história errada que deu certo. Uma vida dura, alegre, problemática, leve, injusta, feliz... Uma vida com tantas histórias e tantas lembranças boas e ruins, que nem cabem mais na minha memória. 

     Tenho um defeito, que pode até parecer uma benção: esqueço fácil das coisas, principalmente  das coisas e pessoas que me machucaram. Talvez eu tenha esses lapsos de memória, por não ficar relembrando esses episódios horríveis da minha vida. Não ficar me ferindo com memórias ruins. Não ficar me martirizando. Nunca gostei de me colocar no lugar de vítima. Sempre penso que todas coisas que eu passei, eram as coisas que eu precisava para me tornar a pessoa que eu sou hoje. Claro, que se eu pudesse voltar o tempo, minhas atitudes seriam diferentes. Mas isso não é possível. Fiz o que eu podia, com a idade que eu tinha,  com o conhecimento e a força que eu carregava na época. Assim eu me perdôo pelos meus erros. Tudo o que eu passei me deixou mais calejada, mais forte, e ao mesmo tempo, mais sensível e mais humana. Tenho uma capacidade enorme de empatia e de perdão. Sei que todos têm suas lutas e superações. Talvez, tudo o que eu vivi, tenha me preparado pra chegar aos quase seis decênios de vida, com esse sentimento de viver mansamente e aproveitar o que de melhor o mundo puder me oferecer. 

   Tantos exames e médicos me fizeram refletir sobre a brevidade da vida. Num momento está tudo bem e no outro aparece uma alteração num exame do coração, o colesterol alto, uma pinta suspeita, uma alteração na pressão... Fico refletindo sobre o que faria uma pessoa que sabe que tem a vida breve. Mas não temos todos a vida breve? 
     
      Acredito que muitos diriam que aproveitar a vida é viajar, conhecer lugares, ir nas festas, baladas, namorar muito, sair com os amigos ou passar mais tempo com as pessoas que ama. Acredito que cada um tenha sua maneira de viver intensamente. Eu nem sei se quero viver intensamente.  Eu gosto da calma. Eu sinto aconchego, calor no meu coração, sorriso no meu rosto e lágrimas de alegria nas coisas pequeninas.
Me aconchegar sozinha no sofá, com meu pijama velho, meias de lã, uma manta, uma música boa, um livro ou um filme, um café  ou uma taça de vinho, é o auge da minha paz. É onde eu sinto que a vida é boa. Estar com meus filhos, genro, nora e netos é quando me sinto certa. Certeza que estamos bem. Que fomos feridos pela vida, mas sobrevivemos e temos força para as próximas batalhas. Minha família é meu refúgio de amor.  Talvez todo o amor que me faltou na vida eu encontro agora no olhar amoroso e cheio de orgulho dos meus filhos e nos sorrisos alegres e afetuosos dos meus netos, que do nada dizem: te amo vó. Sinto-me acolhida e amada. Todo amor e cuidado que me faltou na vida eu também tenho nas amizades construídas ao longo de anos. Amizades que me acolhem, me escutam, me aconselham, me socorrem quando eu preciso.

     Tenho sonhos sim. Viagens, lugares pra conhecer, quadros pra pintar, livros pra ler, pessoas pra visitar, quem sabe escrever um livro, ser mais saudável, passear, viajar, ir a shows das minhas bandas preferidas, me divertir... Mas, mesmo que eu não realize nenhum desses sonhos, me sinto feliz e realizada. Com toda vida torta que eu tive, estou bem e os meus descendentes também. Sequelas temos, mas temos amor, força e coragem para enfrentar a vida. Uma vida vindoura e cheia de surpresas, de coisas boas e ruins e que eu quero viver com sabedoria, preservando todo conhecimento e paz que a maturidade me trouxe. Viver sem pressa, sem alarde, sem conflito e com amor, paz e tranquilidade. E você o que espera da brevidade da vida?



domingo, 3 de agosto de 2025

MULHER GUERREIRA

     



    Esta semana, minha querida tia Ivone, fez uma capa de livro de crochê para mim e escreveu: "Este é para minha guerreira". Alguns dias antes ela tinha escrito: "Realmente, você pegou as pedras do caminho e construiu um mundo novo". Fiquei muito feliz com a maneira que minha tia me considera. Depois da partida da minha mãe e da minha Oma, minhas tias são minha referência de figura materna e, o que elas pensam de mim, me deixa feliz. Como se fosse minha mãe dizendo: " Que orgulho de você, minha filha."

    Ao me chamar de guerreira, com certeza, minha tia quis se referir a todas as coisas ruins que eu passei e consegui dar a volta por cima. Lembrei muito da minha mãe, que dizia que a nossa família, era feita de mulheres guerreiras. Eu ouvi isso dela quando a minha neta Isabela nasceu, num quadro de saúde bem complicado e conseguiu superar. Na primeira vez que vimos a linda e pequena Isabela, foi a certeza que a luta pela vida foi grande. Uma verdadeira guerreira.

    Ser guerreira nem sempre é bom.  É cansativo estar sempre alerta, sempre lutando, sempre superando, sempre tentando se reerguer das adversidades da vida. Eu queria ter uma vida tranquila, mas as minhas escolhas erradas, certas pessoas e situações, não permitiram isso. Não tenho ressentimentos. Tudo que eu passei construiu a mulher que eu sou com 57 anos. São muitas cicatrizes de feridas profundas, mas que não doem mais.  Penso que estou na fase da vida em que eu me sinto mais curada e feliz.  Me sinto bem e fazendo as coisas que eu gosto, que me trazem paz. A minha vida não foi nada fácil. Fui mãe adolescente, comecei a trabalhar cedo, tive relacionamentos complicados e fiquei muito doente de corpo e alma. Hoje me sinto leve, pois não carrego comigo o peso das vivências ruins e sim, o sabor da superação. 

     Ser guerreira ainda é uma batalha diária pra mim, mas dessa vez, por mim. Luto diariamente para ficar saudável física e mentalmente. Na verdade é uma guerra sem fim. Quem já teve depressão como eu, num grau extremo e por anos, sabe do que eu estou falando. É uma luta diária e, ao mesmo tempo, uma certeza, de que o fundo do poço não é meu lugar de pertencimento. O fato de eu não me apegar ao passado me ajuda nesta batalha. Sempre tive facilidade em perdoar e esquecer, só que isso, nem sempre é bom. Essa facilidade de perdão me fez permanecer em situações repetitivas de estresse, medo, dor, humilhação e mentiras. Perdoar demais também é ruim, perde-se o limite do aceitável.

    Tudo que já me aconteceu também me faz  receosa de me jogar para vida. Aí sempre lembro da música Emoções, do Roberto Carlos, que diz: "se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi". Se preservar demais também é ruim. A gente quer se preservar para não se machucar e acaba se fechando para as coisas boas também. É o medo de sofrer.

     Fico aqui tentando encontrar o equilibrio entre se guardar e se jogar. A vida é só uma, e eu já vivi bem mais da metade dela. O que resta, é me colocar sempre em primeiro lugar e me cuidar, Fazer as coisas que eu gosto e, principalmente, não deixar a tristeza fazer morada em mim novamente.  É um eterno orai e vigiai. Agora a maturidade me permite fazer escolhas melhores e vou viver um dia de cada vez, fazendo o que eu tenho vontade e me faz feliz: pintar, escrever, ouvir música, assistir bons filmes passear, contemplar o mar, conversar e estar perto de pessoas do bem. Afinal não quero cantar a música Epitáfio dos Titãs e sim Emoções do Roberto Carlos.

domingo, 29 de junho de 2025

Solidão de Domingo


 Domingo é triste pra quem vive só. Será? 

Fui dormir muito tarde ontem. Na verdade, já era hoje, domingo. Fiquei assistindo a série que conta a história do Raul Seixas. Quando me dei conta, já eram três horas da madrugada. Que delícia poder assistir o que eu quiser, até a hora que eu quiser.

Depois que deitei, ainda demorei pra pegar no sono, pois os pensamentos ficavam viajando e divagando até se acomodarem. É bom poder se virar na cama, ler, ligar e desligar o abajur sem reclamações de outrem Resultado foi que eu dormi a manhã inteira.  Acordei já passava da hora do almoço e eu, que não devo satisfação pra ninguém, preparei um café da manhã no começo da tarde.

Morar sozinha me dá tanta liberdade, tanta paz, tanta autonomia. Tudo isso compensa o fato de não ter alguém junto para dividir a cama, a tv,  a mesa, o sofá e o coração.

Mas eu sou eu. E na minha individualidade e por toda minha história de vida, prefiro ficar só, por enquanto. Posso até mudar de ideia num futuro, mas acho difícil. Amo esse viver só.

Tenho amizades, mas domingo é dia que as pessoas se dedicam em conviver com familiares e os meus não moram aqui. Sou só e é bom.

Depois do meu café da manhã tardio, fui até a praia ver o mar. A areia ainda molhada pela chuva poças de água nas calçadas refletindo o céu azul,  pessoas caminhando no calçadão com seus pets, crianças correndo, uma moça andando de patins. Mais adiante, adolescentes jogando futebol, vôlei e frescobol nas quadras de areia. Maioria dos quiosques fechados. Fora da temporada a cidade vive em outro ritmo e a gente também se adapta nessa lentidão gostosa.

Depois da caminhada resolvi fazer as unhas, conversei no grupo da família e recebi uma chamada de vídeo das minhas primas queridas.

E assim o domingo passou e eu não me senti só. Me senti bem, feliz e satisfeita. Terminei de ler um livro, busquei imagens para me inspirar na próxima  pintura, postei algumas fotos nas redes sociais, fiz um chá de erva doce e agora vou deitar com o coração cheio de gratidão pelo dia que tive. Não me permito sentir só com tantas coisinhas boas que me fazem feliz.


domingo, 18 de maio de 2025

Enxoval

       Eu fui uma adolescente dos anos 80 e sim, eu fiz um enxoval.  Quando fiz 12 anos o meu Opa, exímio marceneiro, construiu um baú para mim e também para minhas primas. Era um baú para guardar o nosso enxoval. Fazer um enxoval era uma tradição entre as mulheres, essencial para ter o conforto em sua casa, quando se casasse. 

    Eu e minhas primas, tínhamos o hábito de abrir nossos baús,  fabricados por nosso avô, e exibir a quantidade de itens ali guardado. Os presentes ganhos em aniversários e Natal já vinham com a frase:  "Guarde para o teu enxoval".  Naquele baú tão significativo a gente guardava os presentes e também nossos sonhos mais felizes e a esperanças de um matrimônio eterno. Cada item era a  certeza que teríamos um lar cheio de beleza em forma de objetos. O pano de prato com barrado de crochê que eu ganhei da Oma era guardado com carinho no meu baú. O  jogo de lençóis de cetim que ganhei da minha mãe,  a toalha de mesa que ganhei no Natal os potes da Tupperware que minha tia revendia e me presenteava com carinho. Tudo se acomodava perfeitamente naquela grande caixa de madeira envernizada.

   Cada vez que eu abria aquele baú, sentia um orgulho muito grande em estar construindo um futuro cheio de coisas belas. Cada pano de prato era aberto, para ser admirado, dobrado com suspiros e guardado com sorrisos, imaginando as lindas louças que ele iria secar depois de uma refeição regada com amor e palavras de afeição. Cada fronha era alisada com minhas mãos jovens, imaginando uma cama arrumada com os sonhos de uma noite estrelada. E eu seguia constantemente , naquela tarefa alegre de desdobrar e dobrar aqueles tecidos  impregnados de emoções e cheiro de naftalina.

  Sentia uma felicidade incrível, enquanto contava quantas peças eu já tinha, o que faltava adquirir e torcendo que no próximo aniversário ou Natal pudesse ganhar aquele item precioso. Guardo com carinho essas lembranças de ter tido um baú de sonhos. Um baú que não guardava só objetos, mas intenções de uma vida feliz.

    Meu baú do enxoval não chegou nem na metade, pois casei muito cedo e não tive tempo de ter todos os itens necessários. Acabou sendo um baú para guardar roupas e cobertas que não cabiam no guarda-roupas. Hoje em dia, meu baú de enxoval, está com  minha filha, que também não usa para o fim que tinha sido destinado.

 Aqueles enxovais, construídos de sonhos, esperanças e emoções da minha adolescência, já não existem mais.  Hoje em dia é muito fácil comprar tudo pronto. Os sonhos vêm embalados em plásticos.  Perderam aquele significado.  São outros tempos e outros sonhos. Casamentos não são tão importantes como na época. Acho que minha geração foi a última, em que,  o sonho da maioria das moças era casar, ter sua casa, seus filhos e trabalhar para "ajudar" nas despesas.

     Ainda bem que os tempos mudaram. As mulheres podem sonhar diferente, ter outras ambições, que não seja só um marido, filhos e um lar. As mulheres podem ter seus próprios sonhos, construir a vida como elas quiserem. Podem inclusive ter um baú de sonhos e um enxoval. 

    O meu enxoval se perdeu na modernidade e eu fiquei só com as lembranças.