Essa semana a internet nos bombardeou com assuntos como adultização e feminicídio. Impossível ficar alheia a tudo isso com tanta informação. Me levou a refletir sobre os dois assuntos e de como a sociedade muda em passos lentos.
Eu que já vivi mais de meio século, passei por muitas mudanças. Nasci e cresci na ditadura, embora não tinha muita noção disso. Como mulher tinha poucos sonhos: casar, ter uma família, uma casa pra cuidar, um emprego pra "ajudar" o marido. Os sonhos eram poucos, pois não nos era permitido sonhar grande.
Se não casasse antes dos trinta ficava taxada como solteirona, se ficasse grávida antes do casamento era mal falada, se tivesse filho sem casar era mãe solteira e não prestava. Foi assim que cresci. E justo eu, fiquei grávida aos quinze anos, antes de casar. O casamento foi obrigatório, por assim dizer, mas eu queria também. O que uma adolescente de quinze anos sabe da vida? Quase nada.
Fico pensando nas leis absurdas que podaram as mulheres. A mulher era tratada como criança. Basta ver filmes e novelas mais antigos para ter uma ideia de como as coisas eram.
Isso não é um discurso feminista, é sobre direitos e deveres de qualquer cidadão brasileiro. Me revolta pensar que o homem podia matar a esposa e não ser preso, por alegar legítima defesa da honra. Apesar de não estar mais no código penal desde 1940, essa justificativa foi utilizada até 2023 quando foi declarada inconstitucional. Essa justificativa só valia para os homens. Essa e tantas outras leis que privaram as mulheres do direito de trabalhar, estudar, votar, se candidatar, se divorciar...
E se as mulheres tem os mesmos direitos, também tem os mesmos deveres? Já ouvi dizer que mulher então, tem que servir o exército, ir pra guerra e fazer o mesmo trabalho que homem faz. Bom, foi um homem que assinou a lei de serviço militar obrigatório para homens, o presidente Afonso Pena em 1908. Deixaram as mulheres de fora por considerarem incapazes e inadequadas. Somente em 1980 permitiram a entrada de mulheres no serviço militar,de forma voluntária, e pra atuar em poucas áreas como saúde e logística. Quem assinou, em 1980, foi outro homem, o presidente José Sarney. Ou seja, a mulher é frágil demais para a guerra, mas forte para parir e criar os filhos.
Sobre trabalho pesado vejo uma visão distorcida de uma sociedade que mede o valor de uma pessoa pela capacidade física, ignorando a inteligência, a sensibilidade, a resistência emocional, entre tantas formas de força feminina. Será que o peso de um saco de cimento é maior do que o de criar os filhos quase sempre sozinhas? Não é questão de igualar a constituição corporal e sim direitos. Força não é somente músculos.
Eu descobri minha força quando fui mãe adolescente e tive que cuidar da minha filha, passando noites sem dormir e levantar cedo para ir às aulas do ensino médio.
Eu descobri minha força quando comecei a lecionar com 17 anos, uma filha de dois anos e grávida novamente. Além de trabalhar fora e ser mãe, também ficava com todo serviço da casa sozinha: lavar, passar, limpar, cozinhar...
Eu descobri a minha força quando com 25 anos comecei a faculdade, pois tive que esperar os filhos crescerem, trabalhava em dois empregos, em cidades diferentes e viajava toda noite para outra cidade para estudar.
Eu descobri minha força maior ainda quando saí de um relacionamento violento, tóxico e narcisista deixando tudo pra trás em busca da minha paz.
Força eu descubro todos os dias quando eu vejo que, como tantas mulheres, a vida não foi fácil mas todas adversidades construíram a mulher que sou hoje.
E para finalizar, eu acredito que a geração nascida no século XXI, tenha uma visão mais igualitária. Quando converso com meus netos, sinto que muitos preconceitos que tínhamos, já estão se acabando. Vejo também muitos absurdos dessa nova geração, que minha educação e visão de mundo não conseguem entender ou aceitar. Talvez eu esteja velha demais para compreender, mas procuro não julgar o que não entendo. Procuro sim, ler e me atualizar sobre a sociedade e suas mudanças e assim não ser injusta com minhas colocações.
A vida segue.

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