domingo, 17 de agosto de 2025

Eu descobri minha força


   Essa semana a internet nos bombardeou com assuntos como adultização e feminicídio. Impossível ficar alheia a tudo isso com tanta informação. Me levou a refletir sobre os dois assuntos e de como a sociedade muda em passos lentos. 

      Eu que já vivi mais de meio século, passei por muitas mudanças. Nasci e cresci na ditadura, embora não tinha muita noção disso. Como mulher tinha poucos sonhos: casar, ter uma família, uma casa pra cuidar, um emprego pra "ajudar" o marido. Os sonhos eram poucos, pois não nos era permitido sonhar grande.

       Se não casasse antes dos trinta ficava taxada como solteirona, se ficasse grávida antes do casamento era mal falada, se tivesse filho sem casar era mãe solteira e não prestava. Foi assim que cresci. E justo eu, fiquei grávida aos quinze anos, antes de casar. O casamento foi obrigatório, por assim dizer, mas eu queria também. O que uma adolescente de quinze anos sabe da vida? Quase nada.

    Fico pensando nas leis absurdas que podaram as mulheres. A mulher era tratada como criança. Basta ver filmes e novelas mais antigos para ter uma ideia de como as coisas eram.

  Isso não é um discurso feminista, é sobre direitos e deveres de qualquer cidadão brasileiro. Me revolta pensar que o homem podia matar a esposa e não ser preso, por alegar legítima defesa da honra. Apesar de não estar mais no código penal desde 1940, essa justificativa foi utilizada até 2023 quando foi declarada inconstitucional. Essa justificativa só valia para os homens. Essa e tantas outras leis que privaram as mulheres do direito de trabalhar, estudar, votar, se candidatar, se divorciar...

   E se as mulheres tem os mesmos direitos, também tem os mesmos deveres? Já ouvi dizer que mulher então, tem que servir o exército, ir pra guerra e fazer o mesmo trabalho que homem faz. Bom, foi um homem que assinou a lei de serviço militar obrigatório para homens, o presidente Afonso Pena em 1908. Deixaram as mulheres de fora por considerarem incapazes e inadequadas. Somente em 1980 permitiram a entrada de mulheres no serviço militar,de forma voluntária,  e pra atuar em poucas áreas como saúde e logística. Quem assinou, em 1980, foi outro homem, o presidente José Sarney. Ou seja, a mulher é frágil demais para a guerra, mas forte para parir e criar os filhos.

    Sobre trabalho pesado vejo uma visão distorcida de uma sociedade que mede o valor de uma pessoa pela capacidade física, ignorando a inteligência, a sensibilidade, a resistência emocional, entre tantas formas de força feminina. Será que o peso de um saco de cimento é maior do que o de criar os filhos quase sempre sozinhas? Não é questão de igualar a constituição corporal e sim direitos. Força não é somente músculos.

   Eu descobri minha força quando fui mãe adolescente e tive que cuidar da minha filha, passando noites sem dormir e levantar cedo para ir às aulas do ensino médio.

   Eu descobri minha força quando comecei a lecionar com 17 anos, uma filha de dois anos e grávida novamente. Além de trabalhar fora e ser mãe, também ficava com todo serviço da casa sozinha: lavar, passar, limpar, cozinhar...

    Eu descobri a minha força quando com 25 anos comecei a faculdade, pois tive que esperar os filhos crescerem, trabalhava em dois empregos, em cidades diferentes e viajava toda noite para outra cidade para estudar.

     Eu descobri minha força maior ainda quando saí de um relacionamento violento, tóxico e narcisista deixando tudo pra trás em busca da minha paz.

       Força eu descubro todos os dias quando eu vejo que, como tantas mulheres, a vida não foi fácil mas todas adversidades construíram a mulher que sou hoje. 

         E para finalizar, eu acredito que a geração nascida no século XXI, tenha uma visão mais igualitária. Quando converso com meus netos, sinto que muitos preconceitos que tínhamos, já estão se acabando. Vejo também muitos absurdos dessa nova geração, que minha educação e visão de mundo não conseguem entender ou aceitar. Talvez eu esteja velha demais para compreender, mas procuro não julgar o que não entendo. Procuro sim, ler e me atualizar sobre a sociedade e suas mudanças e assim não ser injusta com minhas colocações.

 A vida segue.





domingo, 10 de agosto de 2025

Brevidade da Vida


       Nos últimos tempos a minha vida pacata ficou mais agitada. Tenho ido para Joinville com muita frequência para médicos e exames de rotina e também para rever amizades e lugares. Estas idas e vindas me proporcionaram muitas experiências inusitadas. Nunca conversei com tantas pessoas diferentes: minha médica nova, a recepcionista do consultório, os motoristas de aplicativos, a senhora que esperava na rodoviária comigo e a outra que sentou do meu lado no ônibus, a idosa que ajudei a descer do ônibus e carreguei a sua mala pesada até o destino, a atendente do plano de saúde, o cardiologista que me acompanha há anos, o amigo da amiga, que eu não conhecia, um amigo que não via há quase três décadas, a vendedora da loja, a anfitriã do Airbnb, o segurança do prédio, a vizinha do apartamento, as amigas de faculdade e trabalho... Foram tantas pessoas, tantas histórias diferentes, tantas vidas, alegrias e problemas. Cada história de vida daria um texto ou um livro. Mas a história de vida  que eu tenho mais conhecimento é a minha. Minha história é muito tortuosa. Uma história errada que deu certo. Uma vida dura, alegre, problemática, leve, injusta, feliz... Uma vida com tantas histórias e tantas lembranças boas e ruins, que nem cabem mais na minha memória. 

     Tenho um defeito, que pode até parecer uma benção: esqueço fácil das coisas, principalmente  das coisas e pessoas que me machucaram. Talvez eu tenha esses lapsos de memória, por não ficar relembrando esses episódios horríveis da minha vida. Não ficar me ferindo com memórias ruins. Não ficar me martirizando. Nunca gostei de me colocar no lugar de vítima. Sempre penso que todas coisas que eu passei, eram as coisas que eu precisava para me tornar a pessoa que eu sou hoje. Claro, que se eu pudesse voltar o tempo, minhas atitudes seriam diferentes. Mas isso não é possível. Fiz o que eu podia, com a idade que eu tinha,  com o conhecimento e a força que eu carregava na época. Assim eu me perdôo pelos meus erros. Tudo o que eu passei me deixou mais calejada, mais forte, e ao mesmo tempo, mais sensível e mais humana. Tenho uma capacidade enorme de empatia e de perdão. Sei que todos têm suas lutas e superações. Talvez, tudo o que eu vivi, tenha me preparado pra chegar aos quase seis decênios de vida, com esse sentimento de viver mansamente e aproveitar o que de melhor o mundo puder me oferecer. 

   Tantos exames e médicos me fizeram refletir sobre a brevidade da vida. Num momento está tudo bem e no outro aparece uma alteração num exame do coração, o colesterol alto, uma pinta suspeita, uma alteração na pressão... Fico refletindo sobre o que faria uma pessoa que sabe que tem a vida breve. Mas não temos todos a vida breve? 
     
      Acredito que muitos diriam que aproveitar a vida é viajar, conhecer lugares, ir nas festas, baladas, namorar muito, sair com os amigos ou passar mais tempo com as pessoas que ama. Acredito que cada um tenha sua maneira de viver intensamente. Eu nem sei se quero viver intensamente.  Eu gosto da calma. Eu sinto aconchego, calor no meu coração, sorriso no meu rosto e lágrimas de alegria nas coisas pequeninas.
Me aconchegar sozinha no sofá, com meu pijama velho, meias de lã, uma manta, uma música boa, um livro ou um filme, um café  ou uma taça de vinho, é o auge da minha paz. É onde eu sinto que a vida é boa. Estar com meus filhos, genro, nora e netos é quando me sinto certa. Certeza que estamos bem. Que fomos feridos pela vida, mas sobrevivemos e temos força para as próximas batalhas. Minha família é meu refúgio de amor.  Talvez todo o amor que me faltou na vida eu encontro agora no olhar amoroso e cheio de orgulho dos meus filhos e nos sorrisos alegres e afetuosos dos meus netos, que do nada dizem: te amo vó. Sinto-me acolhida e amada. Todo amor e cuidado que me faltou na vida eu também tenho nas amizades construídas ao longo de anos. Amizades que me acolhem, me escutam, me aconselham, me socorrem quando eu preciso.

     Tenho sonhos sim. Viagens, lugares pra conhecer, quadros pra pintar, livros pra ler, pessoas pra visitar, quem sabe escrever um livro, ser mais saudável, passear, viajar, ir a shows das minhas bandas preferidas, me divertir... Mas, mesmo que eu não realize nenhum desses sonhos, me sinto feliz e realizada. Com toda vida torta que eu tive, estou bem e os meus descendentes também. Sequelas temos, mas temos amor, força e coragem para enfrentar a vida. Uma vida vindoura e cheia de surpresas, de coisas boas e ruins e que eu quero viver com sabedoria, preservando todo conhecimento e paz que a maturidade me trouxe. Viver sem pressa, sem alarde, sem conflito e com amor, paz e tranquilidade. E você o que espera da brevidade da vida?



domingo, 3 de agosto de 2025

MULHER GUERREIRA

     



    Esta semana, minha querida tia Ivone, fez uma capa de livro de crochê para mim e escreveu: "Este é para minha guerreira". Alguns dias antes ela tinha escrito: "Realmente, você pegou as pedras do caminho e construiu um mundo novo". Fiquei muito feliz com a maneira que minha tia me considera. Depois da partida da minha mãe e da minha Oma, minhas tias são minha referência de figura materna e, o que elas pensam de mim, me deixa feliz. Como se fosse minha mãe dizendo: " Que orgulho de você, minha filha."

    Ao me chamar de guerreira, com certeza, minha tia quis se referir a todas as coisas ruins que eu passei e consegui dar a volta por cima. Lembrei muito da minha mãe, que dizia que a nossa família, era feita de mulheres guerreiras. Eu ouvi isso dela quando a minha neta Isabela nasceu, num quadro de saúde bem complicado e conseguiu superar. Na primeira vez que vimos a linda e pequena Isabela, foi a certeza que a luta pela vida foi grande. Uma verdadeira guerreira.

    Ser guerreira nem sempre é bom.  É cansativo estar sempre alerta, sempre lutando, sempre superando, sempre tentando se reerguer das adversidades da vida. Eu queria ter uma vida tranquila, mas as minhas escolhas erradas, certas pessoas e situações, não permitiram isso. Não tenho ressentimentos. Tudo que eu passei construiu a mulher que eu sou com 57 anos. São muitas cicatrizes de feridas profundas, mas que não doem mais.  Penso que estou na fase da vida em que eu me sinto mais curada e feliz.  Me sinto bem e fazendo as coisas que eu gosto, que me trazem paz. A minha vida não foi nada fácil. Fui mãe adolescente, comecei a trabalhar cedo, tive relacionamentos complicados e fiquei muito doente de corpo e alma. Hoje me sinto leve, pois não carrego comigo o peso das vivências ruins e sim, o sabor da superação. 

     Ser guerreira ainda é uma batalha diária pra mim, mas dessa vez, por mim. Luto diariamente para ficar saudável física e mentalmente. Na verdade é uma guerra sem fim. Quem já teve depressão como eu, num grau extremo e por anos, sabe do que eu estou falando. É uma luta diária e, ao mesmo tempo, uma certeza, de que o fundo do poço não é meu lugar de pertencimento. O fato de eu não me apegar ao passado me ajuda nesta batalha. Sempre tive facilidade em perdoar e esquecer, só que isso, nem sempre é bom. Essa facilidade de perdão me fez permanecer em situações repetitivas de estresse, medo, dor, humilhação e mentiras. Perdoar demais também é ruim, perde-se o limite do aceitável.

    Tudo que já me aconteceu também me faz  receosa de me jogar para vida. Aí sempre lembro da música Emoções, do Roberto Carlos, que diz: "se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi". Se preservar demais também é ruim. A gente quer se preservar para não se machucar e acaba se fechando para as coisas boas também. É o medo de sofrer.

     Fico aqui tentando encontrar o equilibrio entre se guardar e se jogar. A vida é só uma, e eu já vivi bem mais da metade dela. O que resta, é me colocar sempre em primeiro lugar e me cuidar, Fazer as coisas que eu gosto e, principalmente, não deixar a tristeza fazer morada em mim novamente.  É um eterno orai e vigiai. Agora a maturidade me permite fazer escolhas melhores e vou viver um dia de cada vez, fazendo o que eu tenho vontade e me faz feliz: pintar, escrever, ouvir música, assistir bons filmes passear, contemplar o mar, conversar e estar perto de pessoas do bem. Afinal não quero cantar a música Epitáfio dos Titãs e sim Emoções do Roberto Carlos.