domingo, 14 de setembro de 2025

A JORNADA DE 1300 DIAS

   


 Foi no dia seguinte do meu aniversário de 54 anos que tomei a decisão que mudou completamente a minha vida. Acredito que o universo conspirou para que eu chegasse até aqui, e se passaram 1300 dias. Deixei para trás uma vida, um lugar, uma história e muitos sonhos. Não sabia muito bem o que eu queria para mim, mas sabia o que não queria mais. Foi como viver um luto: um sonho lindo que havia sido construído por anos… e que morreu. Minhas escolhas, minhas decisões e outros acontecimentos levaram a esse fim.

    Lembro que, quando saí do sítio onde morava, não conseguia parar de chorar. Era muita dor. Vi minhas orquídeas amarradas na aroeira, cheias de botões que eu não veria desabrocharem. Minha horta mandala, tão sonhada e produtiva, meu espiral de ervas, o cheiro do manjericão e o doce das folhas de stévia… tudo ficando para trás. Os vasos de barro que eu havia impermeabilizado e fariam parte da fonte que eu queria construir. Eu sonhava em escutar o barulho da água enquanto estivesse na varanda, lendo ou escrevendo, já imaginava os passarinhos bebendo água e se banhando na fonte.

    Tive que me despedir das margaridas floridas, minha flor preferida eque agora eu não veria mais. Lembro que dei uma última olhada na casa de madeira, pequena e aconchegante, com todos os móveis planejados. A casa dos sonhos. Adeus às árvores frutíferas que deixei para trás, sem ao menos provar dos seus frutos. Adeus a cada pedacinho daquele lugar que ajudei a construir. 

 

    Parei várias vezes antes de chegar ao portão. Passar por ele foi dolorido, mas eu não podia voltar. Eu precisava transformar toda a minha desilusão e dor em força para sustentar a decisão de partir. E fui. Arrasada, triste, chorando, mas sabendo que aquela era a atitude certa e que não teria volta. Poderia ter ficado ali sozinha. Tive essa opção. Mas na prática, seria muito difícil cuidar e manter tudo sozinha. Além disso, eu tinha planos maiores para o meu futuro.

    Os primeiros dias longe daquele que tinha sido o meu lar, foram muito difíceis. As semanas e meses seguintes, tristes, desafiadores, solitários. Era um deserto que eu teria de atravessar. Não havia como voltar, então eu segui. Muitos dias sem vontade de sair da cama, sem vontade de nada. Eu sabia que só o tempo poderia me ajudar. Precisava ter paciência com todos os meus sentimentos: tristeza, raiva, decepção. Tive apoio da família e das amigas e isso foi fundamental para minha travessia.

    Foi muito difícil e trabalhoso achar um novo lar numa nova cidade. Difícil também comprar os móveis que faltavam, organizar a mudança, correr atrás de internet, da instalação do ar-condicionado. Tantas decisões para tomar. Dessa vez eu tinha que fazer tudo sozinha. Era hora de construir um novo sonho, fazer escolhas, me desafiar, vencer o medo.

    Vieram meus móveis antigos, carregados de história, que se alinharam com os novos, cheios de sonhos. Eu estava gostando de arrumar meu novo cantinho da maneira que eu queria. Momentos de alegria e felicidade começaram a surgir em cada conquista e em cada medo vencido. Logo me ocupei com longas caminhadas na praia, passeios de bicicleta, o curso de pintura, pilates, dança cigana. Comecei também uma nova faculdade de artes. 

    A arte me ajudou a superar toda a tristeza e desilusão. Transformei minha tristeza e minhas memórias em telas. Cada pintura virou um pedaço de mim. A arte me levou para caminhos inimagináveis como viagens, exposições, premiações. Comecei a mergulhar na minha trajetória artística e nas minhas conquistas.

 
A vida me mostrou que nunca é tarde para recomeçar, para reinventar-se e que caminhar sozinha não é solidão. É liberdade. É amor-próprio. É vida que renasce. Sigo me reconstuindo sempre. A vida não pára e eu ainda tenho muitos sonhos para conquistar,

  













domingo, 17 de agosto de 2025

Eu descobri minha força


   Essa semana a internet nos bombardeou com assuntos como adultização e feminicídio. Impossível ficar alheia a tudo isso com tanta informação. Me levou a refletir sobre os dois assuntos e de como a sociedade muda em passos lentos. 

      Eu que já vivi mais de meio século, passei por muitas mudanças. Nasci e cresci na ditadura, embora não tinha muita noção disso. Como mulher tinha poucos sonhos: casar, ter uma família, uma casa pra cuidar, um emprego pra "ajudar" o marido. Os sonhos eram poucos, pois não nos era permitido sonhar grande.

       Se não casasse antes dos trinta ficava taxada como solteirona, se ficasse grávida antes do casamento era mal falada, se tivesse filho sem casar era mãe solteira e não prestava. Foi assim que cresci. E justo eu, fiquei grávida aos quinze anos, antes de casar. O casamento foi obrigatório, por assim dizer, mas eu queria também. O que uma adolescente de quinze anos sabe da vida? Quase nada.

    Fico pensando nas leis absurdas que podaram as mulheres. A mulher era tratada como criança. Basta ver filmes e novelas mais antigos para ter uma ideia de como as coisas eram.

  Isso não é um discurso feminista, é sobre direitos e deveres de qualquer cidadão brasileiro. Me revolta pensar que o homem podia matar a esposa e não ser preso, por alegar legítima defesa da honra. Apesar de não estar mais no código penal desde 1940, essa justificativa foi utilizada até 2023 quando foi declarada inconstitucional. Essa justificativa só valia para os homens. Essa e tantas outras leis que privaram as mulheres do direito de trabalhar, estudar, votar, se candidatar, se divorciar...

   E se as mulheres tem os mesmos direitos, também tem os mesmos deveres? Já ouvi dizer que mulher então, tem que servir o exército, ir pra guerra e fazer o mesmo trabalho que homem faz. Bom, foi um homem que assinou a lei de serviço militar obrigatório para homens, o presidente Afonso Pena em 1908. Deixaram as mulheres de fora por considerarem incapazes e inadequadas. Somente em 1980 permitiram a entrada de mulheres no serviço militar,de forma voluntária,  e pra atuar em poucas áreas como saúde e logística. Quem assinou, em 1980, foi outro homem, o presidente José Sarney. Ou seja, a mulher é frágil demais para a guerra, mas forte para parir e criar os filhos.

    Sobre trabalho pesado vejo uma visão distorcida de uma sociedade que mede o valor de uma pessoa pela capacidade física, ignorando a inteligência, a sensibilidade, a resistência emocional, entre tantas formas de força feminina. Será que o peso de um saco de cimento é maior do que o de criar os filhos quase sempre sozinhas? Não é questão de igualar a constituição corporal e sim direitos. Força não é somente músculos.

   Eu descobri minha força quando fui mãe adolescente e tive que cuidar da minha filha, passando noites sem dormir e levantar cedo para ir às aulas do ensino médio.

   Eu descobri minha força quando comecei a lecionar com 17 anos, uma filha de dois anos e grávida novamente. Além de trabalhar fora e ser mãe, também ficava com todo serviço da casa sozinha: lavar, passar, limpar, cozinhar...

    Eu descobri a minha força quando com 25 anos comecei a faculdade, pois tive que esperar os filhos crescerem, trabalhava em dois empregos, em cidades diferentes e viajava toda noite para outra cidade para estudar.

     Eu descobri minha força maior ainda quando saí de um relacionamento violento, tóxico e narcisista deixando tudo pra trás em busca da minha paz.

       Força eu descubro todos os dias quando eu vejo que, como tantas mulheres, a vida não foi fácil mas todas adversidades construíram a mulher que sou hoje. 

         E para finalizar, eu acredito que a geração nascida no século XXI, tenha uma visão mais igualitária. Quando converso com meus netos, sinto que muitos preconceitos que tínhamos, já estão se acabando. Vejo também muitos absurdos dessa nova geração, que minha educação e visão de mundo não conseguem entender ou aceitar. Talvez eu esteja velha demais para compreender, mas procuro não julgar o que não entendo. Procuro sim, ler e me atualizar sobre a sociedade e suas mudanças e assim não ser injusta com minhas colocações.

 A vida segue.





domingo, 10 de agosto de 2025

Brevidade da Vida


       Nos últimos tempos a minha vida pacata ficou mais agitada. Tenho ido para Joinville com muita frequência para médicos e exames de rotina e também para rever amizades e lugares. Estas idas e vindas me proporcionaram muitas experiências inusitadas. Nunca conversei com tantas pessoas diferentes: minha médica nova, a recepcionista do consultório, os motoristas de aplicativos, a senhora que esperava na rodoviária comigo e a outra que sentou do meu lado no ônibus, a idosa que ajudei a descer do ônibus e carreguei a sua mala pesada até o destino, a atendente do plano de saúde, o cardiologista que me acompanha há anos, o amigo da amiga, que eu não conhecia, um amigo que não via há quase três décadas, a vendedora da loja, a anfitriã do Airbnb, o segurança do prédio, a vizinha do apartamento, as amigas de faculdade e trabalho... Foram tantas pessoas, tantas histórias diferentes, tantas vidas, alegrias e problemas. Cada história de vida daria um texto ou um livro. Mas a história de vida  que eu tenho mais conhecimento é a minha. Minha história é muito tortuosa. Uma história errada que deu certo. Uma vida dura, alegre, problemática, leve, injusta, feliz... Uma vida com tantas histórias e tantas lembranças boas e ruins, que nem cabem mais na minha memória. 

     Tenho um defeito, que pode até parecer uma benção: esqueço fácil das coisas, principalmente  das coisas e pessoas que me machucaram. Talvez eu tenha esses lapsos de memória, por não ficar relembrando esses episódios horríveis da minha vida. Não ficar me ferindo com memórias ruins. Não ficar me martirizando. Nunca gostei de me colocar no lugar de vítima. Sempre penso que todas coisas que eu passei, eram as coisas que eu precisava para me tornar a pessoa que eu sou hoje. Claro, que se eu pudesse voltar o tempo, minhas atitudes seriam diferentes. Mas isso não é possível. Fiz o que eu podia, com a idade que eu tinha,  com o conhecimento e a força que eu carregava na época. Assim eu me perdôo pelos meus erros. Tudo o que eu passei me deixou mais calejada, mais forte, e ao mesmo tempo, mais sensível e mais humana. Tenho uma capacidade enorme de empatia e de perdão. Sei que todos têm suas lutas e superações. Talvez, tudo o que eu vivi, tenha me preparado pra chegar aos quase seis decênios de vida, com esse sentimento de viver mansamente e aproveitar o que de melhor o mundo puder me oferecer. 

   Tantos exames e médicos me fizeram refletir sobre a brevidade da vida. Num momento está tudo bem e no outro aparece uma alteração num exame do coração, o colesterol alto, uma pinta suspeita, uma alteração na pressão... Fico refletindo sobre o que faria uma pessoa que sabe que tem a vida breve. Mas não temos todos a vida breve? 
     
      Acredito que muitos diriam que aproveitar a vida é viajar, conhecer lugares, ir nas festas, baladas, namorar muito, sair com os amigos ou passar mais tempo com as pessoas que ama. Acredito que cada um tenha sua maneira de viver intensamente. Eu nem sei se quero viver intensamente.  Eu gosto da calma. Eu sinto aconchego, calor no meu coração, sorriso no meu rosto e lágrimas de alegria nas coisas pequeninas.
Me aconchegar sozinha no sofá, com meu pijama velho, meias de lã, uma manta, uma música boa, um livro ou um filme, um café  ou uma taça de vinho, é o auge da minha paz. É onde eu sinto que a vida é boa. Estar com meus filhos, genro, nora e netos é quando me sinto certa. Certeza que estamos bem. Que fomos feridos pela vida, mas sobrevivemos e temos força para as próximas batalhas. Minha família é meu refúgio de amor.  Talvez todo o amor que me faltou na vida eu encontro agora no olhar amoroso e cheio de orgulho dos meus filhos e nos sorrisos alegres e afetuosos dos meus netos, que do nada dizem: te amo vó. Sinto-me acolhida e amada. Todo amor e cuidado que me faltou na vida eu também tenho nas amizades construídas ao longo de anos. Amizades que me acolhem, me escutam, me aconselham, me socorrem quando eu preciso.

     Tenho sonhos sim. Viagens, lugares pra conhecer, quadros pra pintar, livros pra ler, pessoas pra visitar, quem sabe escrever um livro, ser mais saudável, passear, viajar, ir a shows das minhas bandas preferidas, me divertir... Mas, mesmo que eu não realize nenhum desses sonhos, me sinto feliz e realizada. Com toda vida torta que eu tive, estou bem e os meus descendentes também. Sequelas temos, mas temos amor, força e coragem para enfrentar a vida. Uma vida vindoura e cheia de surpresas, de coisas boas e ruins e que eu quero viver com sabedoria, preservando todo conhecimento e paz que a maturidade me trouxe. Viver sem pressa, sem alarde, sem conflito e com amor, paz e tranquilidade. E você o que espera da brevidade da vida?



domingo, 3 de agosto de 2025

MULHER GUERREIRA

     



    Esta semana, minha querida tia Ivone, fez uma capa de livro de crochê para mim e escreveu: "Este é para minha guerreira". Alguns dias antes ela tinha escrito: "Realmente, você pegou as pedras do caminho e construiu um mundo novo". Fiquei muito feliz com a maneira que minha tia me considera. Depois da partida da minha mãe e da minha Oma, minhas tias são minha referência de figura materna e, o que elas pensam de mim, me deixa feliz. Como se fosse minha mãe dizendo: " Que orgulho de você, minha filha."

    Ao me chamar de guerreira, com certeza, minha tia quis se referir a todas as coisas ruins que eu passei e consegui dar a volta por cima. Lembrei muito da minha mãe, que dizia que a nossa família, era feita de mulheres guerreiras. Eu ouvi isso dela quando a minha neta Isabela nasceu, num quadro de saúde bem complicado e conseguiu superar. Na primeira vez que vimos a linda e pequena Isabela, foi a certeza que a luta pela vida foi grande. Uma verdadeira guerreira.

    Ser guerreira nem sempre é bom.  É cansativo estar sempre alerta, sempre lutando, sempre superando, sempre tentando se reerguer das adversidades da vida. Eu queria ter uma vida tranquila, mas as minhas escolhas erradas, certas pessoas e situações, não permitiram isso. Não tenho ressentimentos. Tudo que eu passei construiu a mulher que eu sou com 57 anos. São muitas cicatrizes de feridas profundas, mas que não doem mais.  Penso que estou na fase da vida em que eu me sinto mais curada e feliz.  Me sinto bem e fazendo as coisas que eu gosto, que me trazem paz. A minha vida não foi nada fácil. Fui mãe adolescente, comecei a trabalhar cedo, tive relacionamentos complicados e fiquei muito doente de corpo e alma. Hoje me sinto leve, pois não carrego comigo o peso das vivências ruins e sim, o sabor da superação. 

     Ser guerreira ainda é uma batalha diária pra mim, mas dessa vez, por mim. Luto diariamente para ficar saudável física e mentalmente. Na verdade é uma guerra sem fim. Quem já teve depressão como eu, num grau extremo e por anos, sabe do que eu estou falando. É uma luta diária e, ao mesmo tempo, uma certeza, de que o fundo do poço não é meu lugar de pertencimento. O fato de eu não me apegar ao passado me ajuda nesta batalha. Sempre tive facilidade em perdoar e esquecer, só que isso, nem sempre é bom. Essa facilidade de perdão me fez permanecer em situações repetitivas de estresse, medo, dor, humilhação e mentiras. Perdoar demais também é ruim, perde-se o limite do aceitável.

    Tudo que já me aconteceu também me faz  receosa de me jogar para vida. Aí sempre lembro da música Emoções, do Roberto Carlos, que diz: "se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi". Se preservar demais também é ruim. A gente quer se preservar para não se machucar e acaba se fechando para as coisas boas também. É o medo de sofrer.

     Fico aqui tentando encontrar o equilibrio entre se guardar e se jogar. A vida é só uma, e eu já vivi bem mais da metade dela. O que resta, é me colocar sempre em primeiro lugar e me cuidar, Fazer as coisas que eu gosto e, principalmente, não deixar a tristeza fazer morada em mim novamente.  É um eterno orai e vigiai. Agora a maturidade me permite fazer escolhas melhores e vou viver um dia de cada vez, fazendo o que eu tenho vontade e me faz feliz: pintar, escrever, ouvir música, assistir bons filmes passear, contemplar o mar, conversar e estar perto de pessoas do bem. Afinal não quero cantar a música Epitáfio dos Titãs e sim Emoções do Roberto Carlos.

domingo, 29 de junho de 2025

Solidão de Domingo


 Domingo é triste pra quem vive só. Será? 

Fui dormir muito tarde ontem. Na verdade, já era hoje, domingo. Fiquei assistindo a série que conta a história do Raul Seixas. Quando me dei conta, já eram três horas da madrugada. Que delícia poder assistir o que eu quiser, até a hora que eu quiser.

Depois que deitei, ainda demorei pra pegar no sono, pois os pensamentos ficavam viajando e divagando até se acomodarem. É bom poder se virar na cama, ler, ligar e desligar o abajur sem reclamações de outrem Resultado foi que eu dormi a manhã inteira.  Acordei já passava da hora do almoço e eu, que não devo satisfação pra ninguém, preparei um café da manhã no começo da tarde.

Morar sozinha me dá tanta liberdade, tanta paz, tanta autonomia. Tudo isso compensa o fato de não ter alguém junto para dividir a cama, a tv,  a mesa, o sofá e o coração.

Mas eu sou eu. E na minha individualidade e por toda minha história de vida, prefiro ficar só, por enquanto. Posso até mudar de ideia num futuro, mas acho difícil. Amo esse viver só.

Tenho amizades, mas domingo é dia que as pessoas se dedicam em conviver com familiares e os meus não moram aqui. Sou só e é bom.

Depois do meu café da manhã tardio, fui até a praia ver o mar. A areia ainda molhada pela chuva poças de água nas calçadas refletindo o céu azul,  pessoas caminhando no calçadão com seus pets, crianças correndo, uma moça andando de patins. Mais adiante, adolescentes jogando futebol, vôlei e frescobol nas quadras de areia. Maioria dos quiosques fechados. Fora da temporada a cidade vive em outro ritmo e a gente também se adapta nessa lentidão gostosa.

Depois da caminhada resolvi fazer as unhas, conversei no grupo da família e recebi uma chamada de vídeo das minhas primas queridas.

E assim o domingo passou e eu não me senti só. Me senti bem, feliz e satisfeita. Terminei de ler um livro, busquei imagens para me inspirar na próxima  pintura, postei algumas fotos nas redes sociais, fiz um chá de erva doce e agora vou deitar com o coração cheio de gratidão pelo dia que tive. Não me permito sentir só com tantas coisinhas boas que me fazem feliz.


domingo, 18 de maio de 2025

Enxoval

       Eu fui uma adolescente dos anos 80 e sim, eu fiz um enxoval.  Quando fiz 12 anos o meu Opa, exímio marceneiro, construiu um baú para mim e também para minhas primas. Era um baú para guardar o nosso enxoval. Fazer um enxoval era uma tradição entre as mulheres, essencial para ter o conforto em sua casa, quando se casasse. 

    Eu e minhas primas, tínhamos o hábito de abrir nossos baús,  fabricados por nosso avô, e exibir a quantidade de itens ali guardado. Os presentes ganhos em aniversários e Natal já vinham com a frase:  "Guarde para o teu enxoval".  Naquele baú tão significativo a gente guardava os presentes e também nossos sonhos mais felizes e a esperanças de um matrimônio eterno. Cada item era a  certeza que teríamos um lar cheio de beleza em forma de objetos. O pano de prato com barrado de crochê que eu ganhei da Oma era guardado com carinho no meu baú. O  jogo de lençóis de cetim que ganhei da minha mãe,  a toalha de mesa que ganhei no Natal os potes da Tupperware que minha tia revendia e me presenteava com carinho. Tudo se acomodava perfeitamente naquela grande caixa de madeira envernizada.

   Cada vez que eu abria aquele baú, sentia um orgulho muito grande em estar construindo um futuro cheio de coisas belas. Cada pano de prato era aberto, para ser admirado, dobrado com suspiros e guardado com sorrisos, imaginando as lindas louças que ele iria secar depois de uma refeição regada com amor e palavras de afeição. Cada fronha era alisada com minhas mãos jovens, imaginando uma cama arrumada com os sonhos de uma noite estrelada. E eu seguia constantemente , naquela tarefa alegre de desdobrar e dobrar aqueles tecidos  impregnados de emoções e cheiro de naftalina.

  Sentia uma felicidade incrível, enquanto contava quantas peças eu já tinha, o que faltava adquirir e torcendo que no próximo aniversário ou Natal pudesse ganhar aquele item precioso. Guardo com carinho essas lembranças de ter tido um baú de sonhos. Um baú que não guardava só objetos, mas intenções de uma vida feliz.

    Meu baú do enxoval não chegou nem na metade, pois casei muito cedo e não tive tempo de ter todos os itens necessários. Acabou sendo um baú para guardar roupas e cobertas que não cabiam no guarda-roupas. Hoje em dia, meu baú de enxoval, está com  minha filha, que também não usa para o fim que tinha sido destinado.

 Aqueles enxovais, construídos de sonhos, esperanças e emoções da minha adolescência, já não existem mais.  Hoje em dia é muito fácil comprar tudo pronto. Os sonhos vêm embalados em plásticos.  Perderam aquele significado.  São outros tempos e outros sonhos. Casamentos não são tão importantes como na época. Acho que minha geração foi a última, em que,  o sonho da maioria das moças era casar, ter sua casa, seus filhos e trabalhar para "ajudar" nas despesas.

     Ainda bem que os tempos mudaram. As mulheres podem sonhar diferente, ter outras ambições, que não seja só um marido, filhos e um lar. As mulheres podem ter seus próprios sonhos, construir a vida como elas quiserem. Podem inclusive ter um baú de sonhos e um enxoval. 

    O meu enxoval se perdeu na modernidade e eu fiquei só com as lembranças.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Expectativas e Esperanças


   


 Hoje eu estava refletindo sobre expectativas e esperanças e de como elas influenciam na vida da gente.

     De acordo com dicionário expectativa é situação de quem espera a ocorrência de algo ou sua possibilidade de ocorrência e também que em determinado momento expectativa e esperança são irmãs. Eu acho que se diferem por envolver sentimentos. A expectativa é uma crença centrada no futuro. A esperança é mais emocional, uma luz, uma lenda. 

    Quando criança eu queria ganhar um piano de brinquedo, mas ganhei uma sanfoninha de plástico e papelão que durou somente dois dias. Tive minhas expectativas frustradas quando criança por diversas vezes. Quando somos crianças, nossas expectativas e esperanças são simples e fáceis. O difícil é lidar com a frustração. Sempre digo que não se deve prometer para criança aquilo que não se pode cumprir. A medida que crescemos, as expectativas mudam. 

    Eu tinha 13 anos queria ter 15 para ganhar uma festa grande, tipo baile de debutantes. Ganhei somente um bolo bonito da minha mãe e um buque de rosas dos meus padrinhos. Depois queria ter 18 anos para sair de casa, ser independente, morar sozinha e ser feliz. Com 15 anos engravidei, casei e tive que morar  na casa dos sogros por quase três anos. Com 18 anos,  já esperando o segundo filho, comecei a lecionar. Queria muito fazer uma faculdade para melhorar meu salário. Consegui fazer a faculdade somente 10 anos depois, com 28 anos, quando meus filhos já eram mais crescidos. Tive muitas expectativas frutradas ou adiadas na minha vida, como todo mundo tem.

    Minha última expectativa era me aposentar.  Isso sim faria a diferença na minha vida. Seria um mar de rosas com viagens, passeios, encontros com amigos e tempo de sobra para fazer tudo que eu gosto. Tempo para desfrutar o ócio, deitada numa rede na varanda com um copo de vinho. Teria tempo para fazer atividade física, alimentação saudável e sono de qualidade. Sonhava em fazer um cruzeiro, construir uma casa no sítio e quem sabe morar na praia.  Fiz o cruzeiro e a casa no sítio. Não fui morar na praia. Veio a pandemia e fui morar no sítio. 

    Eu gostava muito  de morar no sítio, mas não imaginava que dava tanto trabalho. Depois de três anos morando e labutando no sítio veio a separação. Dias difíceis, tristezas, desentendimentos, sonhos destruídos e uma decisão: tornar realidade aquela minha esperança de morar na praia. As expectativas eram boas: morar sozinha na praia, caminhar na orla, emagrecer, viajar muito,  fazer novas amizades, ir nas baladas, ter meu cantinho. Não foi bem assim. Fiquei sozinha, me sentia só, engordei, auto-estima no chão, sem viagens, sem amigos novos, sem baladas. O excesso de peso me privou até das caminhadas. Meus joelhos sofriam mais que eu.

  Benditas expectativas. Para realizá-las não basta ter esperança e sim, tem que ter movimento ação e trabalho. Meu cenário idealizado de aposentada, magra e feliz, caminhando, viajando, curtindo, não se confirmou e veio a decepção. 

    Ano passado eu resolvi dar um basta. Queria emagrecer pelo menos uns 4 kg por mês e chegar magra no fim de ano. Desta vez tive atitude e determinação mas só consegui emagrecer 2 kg por mês e este processo me trouxe muitas alegrias, muitas decepções e muitos aprendizados. 

    Nossas expectativas e esperanças dependem do grau de nossa dedicação para alcançá-las e também dependem de fatores externos e de outras pessoas. Não temos controle sobre tudo, temos que pensar diferente. Aceitar os desvios de rota, aceitar a demora, o tempo, o inesperado, as diferenças, as resistências.

     Fica a reflexão de como encontrar uma maneira em equilibrar as expectativas para evitar as frustrações. A vida não é linear, nem o trabalho, nem o emagrecimento, nem a capacidade física. É preciso aceitar o imprevisível, as pessoas, as circunstâncias. Temos que equilibrar as expectativas, ter flexibilidade. Ter a esperança de que nossas expectativas sejam verdadeiras sabendo que também dependem muito do nosso esforço. 

    Agora tenho a expectativa de melhorar minha saúde e minha mobilidade para poder viajar, continuar morando sozinha e quem sabe morar num lugar melhor. Isso só vai acontecer se eu me dedicar, tiver foco. É trabalho duro e dedicação. Depende essencialmente de mim. Terei resistências internas e externas. Preciso manter a constância, não desistir. 

    Assumir o protagonismo da minha vida, a responsabilidade das minhas ações e também as suas consequências é essencial. É muito fácil colocar a culpa no azar, no passado difícil, nas atitudes dos outros, na falta de tempo, de dinheiro, na idade ou em tantas outras desculpas, sem analisar se eu fiz tudo que podia para alcançar meus sonhos. 

Sou uma mulher com esperanças e expectativas. Uma sonhadora dedicada e realista.