domingo, 26 de abril de 2026

EU CIGANA.

 

            Estou numa fase de desapegos. Querendo deixar meu lar mais leve e minha vida também. Carregar menos peso. Lembro de uma citação de Cora Coralina: “ Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui para frente levo apenas o que couber no bolso e no coração. ”

   Recentemente, no meio dos meus desapegos, encontrei uma saia cigana no fundo do guarda-roupa. E foi como reencontrar uma parte de mim.

Eu abracei aquela saia, me emocionei e lágrimas correram pela minha face caindo sobre a saia. Não eram lágrimas de tristeza e sim de gratidão.

Vesti novamente a saia. Me olhei no espelho e sorri com uma verdade que só quem já se reconstruiu conhece. Ali estava eu: inteira, bonita, livre. Dançando de novo.

 Essa saia me trouxe lembranças de quatro anos atrás, quando vim morar em Barra Velha, após uma separação difícil. Pela primeira vez, eu morava sozinha. Envolvida no silêncio, insegurança e um peso difícil de explicar. Cada pequena decisão dentro de casa parecia grande demais. Cada ausência ecoava.

Foi nesse tempo frágil que surgiu um convite inesperado: uma aula de dança cigana. Eu fui. E já na primeira roda, sentada no chão, tentando esconder minha timidez e minha dor, alguém me enxergou. A professora percebeu o que eu nem conseguia dizer. E, com delicadeza, me acolheu. Falou comigo, me trouxe para dentro daquele círculo de mulheres e, de alguma forma, me devolveu um pouco de mim.


Eu não sabia os passos. Meu corpo ainda estava preso, como se carregasse tudo o que eu tinha vivido. Mas, aos poucos, algo começou a se soltar. A dança me devolveu movimento. As pessoas me devolveram pertencimento. E, sem perceber, fui me reconstruindo.

Eu não tinha roupa e a professora me emprestava uma saia dela e os acessórios também. Na segunda aula, ela reuniu todas numa roda e conversamos sobre nossos sentimentos e eu contei que estava recomeçando a vida. A professora escutou todas e depois olhou para mim e disse que aquela saia era minha. Contou sobre a pessoa que costurou a saia. Uma história cheia de significados. Eu me senti honrada e emocionada

Não era só uma saia. Era um abraço. Era coragem. Era um símbolo daquele tempo em que, mesmo quebrada, eu escolhi continuar. Vesti aquela saia muitas vezes e, com ela, me senti mais leve, mais viva, mais eu.

O grupo acabou um dia. Como tantas coisas acabam. Mas o que ele deixou em mim, não. Então entendi que era hora de deixá-la seguir. Procurei a professora de dança nos meus contatos, para ver se ela aceitava a saia de volta, porque certas coisas não são apenas objetos são histórias compartilhadas. E ela aceitou recebê-la de volta.

Me despedi com carinho. Sem dor. Porque há coisas que não precisam ficar para sempre com a gente, elas só precisam passar por nós no momento certo. Aquela saia cumpriu sua missão. E eu sigo a minha vida mais leve, mais solta, mais corajosa. Como uma mulher que aprendeu a dançar com a própria vida.

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