Estou numa fase de desapegos. Querendo
deixar meu lar mais leve e minha vida também. Carregar menos peso. Lembro de
uma citação de Cora Coralina: “ Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve
tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui para frente
levo apenas o que couber no bolso e no coração. ”
Eu
abracei aquela saia, me emocionei e lágrimas correram pela minha face caindo
sobre a saia. Não eram lágrimas de tristeza e sim de gratidão.
Vesti
novamente a saia. Me olhei no espelho e sorri com uma verdade que só quem já se
reconstruiu conhece. Ali estava eu: inteira, bonita, livre. Dançando de novo.
Essa
saia me trouxe lembranças de quatro anos atrás, quando vim morar em Barra Velha,
após uma separação difícil. Pela primeira vez, eu morava sozinha. Envolvida no silêncio,
insegurança e um peso difícil de explicar. Cada pequena decisão dentro de casa
parecia grande demais. Cada ausência ecoava.
Foi
nesse tempo frágil que surgiu um convite inesperado: uma aula de dança cigana. Eu
fui. E já na primeira roda, sentada no chão, tentando esconder minha timidez e
minha dor, alguém me enxergou. A professora percebeu o que eu nem conseguia
dizer. E, com delicadeza, me acolheu. Falou comigo, me trouxe para dentro
daquele círculo de mulheres e, de alguma forma, me devolveu um pouco de mim.
Eu
não sabia os passos. Meu corpo ainda estava preso, como se carregasse tudo o
que eu tinha vivido. Mas, aos poucos, algo começou a se soltar. A dança me
devolveu movimento. As pessoas me devolveram pertencimento. E, sem perceber,
fui me reconstruindo.
Eu
não tinha roupa e a professora me emprestava uma saia dela e os acessórios
também. Na segunda aula, ela reuniu todas numa roda e conversamos sobre nossos
sentimentos e eu contei que estava recomeçando a vida. A professora escutou
todas e depois olhou para mim e disse que aquela saia era minha. Contou sobre a
pessoa que costurou a saia. Uma história cheia de significados. Eu me senti
honrada e emocionada
Não
era só uma saia. Era um abraço. Era coragem. Era um símbolo daquele tempo em
que, mesmo quebrada, eu escolhi continuar. Vesti aquela saia muitas vezes e,
com ela, me senti mais leve, mais viva, mais eu.
O
grupo acabou um dia. Como tantas coisas acabam. Mas o que ele deixou em mim, não.
Então entendi que era hora de deixá-la seguir. Procurei a professora de dança
nos meus contatos, para ver se ela aceitava a saia de volta, porque certas coisas
não são apenas objetos são histórias compartilhadas. E ela aceitou recebê-la de
volta.
Me
despedi com carinho. Sem dor. Porque há coisas que não precisam ficar para
sempre com a gente, elas só precisam passar por nós no momento certo. Aquela
saia cumpriu sua missão. E eu sigo a minha vida mais leve, mais solta, mais
corajosa. Como uma mulher que aprendeu a dançar com a própria vida.
Q história em amiga!! E q bom q tudo mudou pra melhor🙏
ResponderExcluirSó gratidão.
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