domingo, 10 de agosto de 2025
Brevidade da Vida
domingo, 3 de agosto de 2025
MULHER GUERREIRA
Ao me chamar de guerreira, com certeza, minha tia quis se referir a todas as coisas ruins que eu passei e consegui dar a volta por cima. Lembrei muito da minha mãe, que dizia que a nossa família, era feita de mulheres guerreiras. Eu ouvi isso dela quando a minha neta Isabela nasceu, num quadro de saúde bem complicado e conseguiu superar. Na primeira vez que vimos a linda e pequena Isabela, foi a certeza que a luta pela vida foi grande. Uma verdadeira guerreira.
Ser guerreira nem sempre é bom. É cansativo estar sempre alerta, sempre lutando, sempre superando, sempre tentando se reerguer das adversidades da vida. Eu queria ter uma vida tranquila, mas as minhas escolhas erradas, certas pessoas e situações, não permitiram isso. Não tenho ressentimentos. Tudo que eu passei construiu a mulher que eu sou com 57 anos. São muitas cicatrizes de feridas profundas, mas que não doem mais. Penso que estou na fase da vida em que eu me sinto mais curada e feliz. Me sinto bem e fazendo as coisas que eu gosto, que me trazem paz. A minha vida não foi nada fácil. Fui mãe adolescente, comecei a trabalhar cedo, tive relacionamentos complicados e fiquei muito doente de corpo e alma. Hoje me sinto leve, pois não carrego comigo o peso das vivências ruins e sim, o sabor da superação.
Ser guerreira ainda é uma batalha diária pra mim, mas dessa vez, por mim. Luto diariamente para ficar saudável física e mentalmente. Na verdade é uma guerra sem fim. Quem já teve depressão como eu, num grau extremo e por anos, sabe do que eu estou falando. É uma luta diária e, ao mesmo tempo, uma certeza, de que o fundo do poço não é meu lugar de pertencimento. O fato de eu não me apegar ao passado me ajuda nesta batalha. Sempre tive facilidade em perdoar e esquecer, só que isso, nem sempre é bom. Essa facilidade de perdão me fez permanecer em situações repetitivas de estresse, medo, dor, humilhação e mentiras. Perdoar demais também é ruim, perde-se o limite do aceitável.
Tudo que já me aconteceu também me faz receosa de me jogar para vida. Aí sempre lembro da música Emoções, do Roberto Carlos, que diz: "se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi". Se preservar demais também é ruim. A gente quer se preservar para não se machucar e acaba se fechando para as coisas boas também. É o medo de sofrer.
Fico aqui tentando encontrar o equilibrio entre se guardar e se jogar. A vida é só uma, e eu já vivi bem mais da metade dela. O que resta, é me colocar sempre em primeiro lugar e me cuidar, Fazer as coisas que eu gosto e, principalmente, não deixar a tristeza fazer morada em mim novamente. É um eterno orai e vigiai. Agora a maturidade me permite fazer escolhas melhores e vou viver um dia de cada vez, fazendo o que eu tenho vontade e me faz feliz: pintar, escrever, ouvir música, assistir bons filmes passear, contemplar o mar, conversar e estar perto de pessoas do bem. Afinal não quero cantar a música Epitáfio dos Titãs e sim Emoções do Roberto Carlos.
domingo, 29 de junho de 2025
Solidão de Domingo
Fui dormir muito tarde ontem. Na verdade, já era hoje, domingo. Fiquei assistindo a série que conta a história do Raul Seixas. Quando me dei conta, já eram três horas da madrugada. Que delícia poder assistir o que eu quiser, até a hora que eu quiser.
Depois que deitei, ainda demorei pra pegar no sono, pois os pensamentos ficavam viajando e divagando até se acomodarem. É bom poder se virar na cama, ler, ligar e desligar o abajur sem reclamações de outrem Resultado foi que eu dormi a manhã inteira. Acordei já passava da hora do almoço e eu, que não devo satisfação pra ninguém, preparei um café da manhã no começo da tarde.
Morar sozinha me dá tanta liberdade, tanta paz, tanta autonomia. Tudo isso compensa o fato de não ter alguém junto para dividir a cama, a tv, a mesa, o sofá e o coração.
Mas eu sou eu. E na minha individualidade e por toda minha história de vida, prefiro ficar só, por enquanto. Posso até mudar de ideia num futuro, mas acho difícil. Amo esse viver só.
Tenho amizades, mas domingo é dia que as pessoas se dedicam em conviver com familiares e os meus não moram aqui. Sou só e é bom.
Depois do meu café da manhã tardio, fui até a praia ver o mar. A areia ainda molhada pela chuva poças de água nas calçadas refletindo o céu azul, pessoas caminhando no calçadão com seus pets, crianças correndo, uma moça andando de patins. Mais adiante, adolescentes jogando futebol, vôlei e frescobol nas quadras de areia. Maioria dos quiosques fechados. Fora da temporada a cidade vive em outro ritmo e a gente também se adapta nessa lentidão gostosa.
Depois da caminhada resolvi fazer as unhas, conversei no grupo da família e recebi uma chamada de vídeo das minhas primas queridas.
E assim o domingo passou e eu não me senti só. Me senti bem, feliz e satisfeita. Terminei de ler um livro, busquei imagens para me inspirar na próxima pintura, postei algumas fotos nas redes sociais, fiz um chá de erva doce e agora vou deitar com o coração cheio de gratidão pelo dia que tive. Não me permito sentir só com tantas coisinhas boas que me fazem feliz.
domingo, 18 de maio de 2025
Enxoval
Eu e minhas primas, tínhamos o hábito de abrir nossos baús, fabricados por nosso avô, e exibir a quantidade de itens ali guardado. Os presentes ganhos em aniversários e Natal já vinham com a frase: "Guarde para o teu enxoval". Naquele baú tão significativo a gente guardava os presentes e também nossos sonhos mais felizes e a esperanças de um matrimônio eterno. Cada item era a certeza que teríamos um lar cheio de beleza em forma de objetos. O pano de prato com barrado de crochê que eu ganhei da Oma era guardado com carinho no meu baú. O jogo de lençóis de cetim que ganhei da minha mãe, a toalha de mesa que ganhei no Natal os potes da Tupperware que minha tia revendia e me presenteava com carinho. Tudo se acomodava perfeitamente naquela grande caixa de madeira envernizada.
Cada vez que eu abria aquele baú, sentia um orgulho muito grande em estar construindo um futuro cheio de coisas belas. Cada pano de prato era aberto, para ser admirado, dobrado com suspiros e guardado com sorrisos, imaginando as lindas louças que ele iria secar depois de uma refeição regada com amor e palavras de afeição. Cada fronha era alisada com minhas mãos jovens, imaginando uma cama arrumada com os sonhos de uma noite estrelada. E eu seguia constantemente , naquela tarefa alegre de desdobrar e dobrar aqueles tecidos impregnados de emoções e cheiro de naftalina.
Sentia uma felicidade incrível, enquanto contava quantas peças eu já tinha, o que faltava adquirir e torcendo que no próximo aniversário ou Natal pudesse ganhar aquele item precioso. Guardo com carinho essas lembranças de ter tido um baú de sonhos. Um baú que não guardava só objetos, mas intenções de uma vida feliz.
Meu baú do enxoval não chegou nem na metade, pois casei muito cedo e não tive tempo de ter todos os itens necessários. Acabou sendo um baú para guardar roupas e cobertas que não cabiam no guarda-roupas. Hoje em dia, meu baú de enxoval, está com minha filha, que também não usa para o fim que tinha sido destinado.
Aqueles enxovais, construídos de sonhos, esperanças e emoções da minha adolescência, já não existem mais. Hoje em dia é muito fácil comprar tudo pronto. Os sonhos vêm embalados em plásticos. Perderam aquele significado. São outros tempos e outros sonhos. Casamentos não são tão importantes como na época. Acho que minha geração foi a última, em que, o sonho da maioria das moças era casar, ter sua casa, seus filhos e trabalhar para "ajudar" nas despesas.
Ainda bem que os tempos mudaram. As mulheres podem sonhar diferente, ter outras ambições, que não seja só um marido, filhos e um lar. As mulheres podem ter seus próprios sonhos, construir a vida como elas quiserem. Podem inclusive ter um baú de sonhos e um enxoval.
O meu enxoval se perdeu na modernidade e eu fiquei só com as lembranças.
quarta-feira, 19 de março de 2025
Expectativas e Esperanças
Hoje eu estava refletindo sobre expectativas e esperanças e de como elas influenciam na vida da gente.
De acordo com dicionário expectativa é situação de quem espera a ocorrência de algo ou sua possibilidade de ocorrência e também que em determinado momento expectativa e esperança são irmãs. Eu acho que se diferem por envolver sentimentos. A expectativa é uma crença centrada no futuro. A esperança é mais emocional, uma luz, uma lenda.
Quando criança eu queria ganhar um piano de brinquedo, mas ganhei uma sanfoninha de plástico e papelão que durou somente dois dias. Tive minhas expectativas frustradas quando criança por diversas vezes. Quando somos crianças, nossas expectativas e esperanças são simples e fáceis. O difícil é lidar com a frustração. Sempre digo que não se deve prometer para criança aquilo que não se pode cumprir. A medida que crescemos, as expectativas mudam.
Eu tinha 13 anos queria ter 15 para ganhar uma festa grande, tipo baile de debutantes. Ganhei somente um bolo bonito da minha mãe e um buque de rosas dos meus padrinhos. Depois queria ter 18 anos para sair de casa, ser independente, morar sozinha e ser feliz. Com 15 anos engravidei, casei e tive que morar na casa dos sogros por quase três anos. Com 18 anos, já esperando o segundo filho, comecei a lecionar. Queria muito fazer uma faculdade para melhorar meu salário. Consegui fazer a faculdade somente 10 anos depois, com 28 anos, quando meus filhos já eram mais crescidos. Tive muitas expectativas frutradas ou adiadas na minha vida, como todo mundo tem.
Minha última expectativa era me aposentar. Isso sim faria a diferença na minha vida. Seria um mar de rosas com viagens, passeios, encontros com amigos e tempo de sobra para fazer tudo que eu gosto. Tempo para desfrutar o ócio, deitada numa rede na varanda com um copo de vinho. Teria tempo para fazer atividade física, alimentação saudável e sono de qualidade. Sonhava em fazer um cruzeiro, construir uma casa no sítio e quem sabe morar na praia. Fiz o cruzeiro e a casa no sítio. Não fui morar na praia. Veio a pandemia e fui morar no sítio.
Eu gostava muito de morar no sítio, mas não imaginava que dava tanto trabalho. Depois de três anos morando e labutando no sítio veio a separação. Dias difíceis, tristezas, desentendimentos, sonhos destruídos e uma decisão: tornar realidade aquela minha esperança de morar na praia. As expectativas eram boas: morar sozinha na praia, caminhar na orla, emagrecer, viajar muito, fazer novas amizades, ir nas baladas, ter meu cantinho. Não foi bem assim. Fiquei sozinha, me sentia só, engordei, auto-estima no chão, sem viagens, sem amigos novos, sem baladas. O excesso de peso me privou até das caminhadas. Meus joelhos sofriam mais que eu.
Benditas expectativas. Para realizá-las não basta ter esperança e sim, tem que ter movimento ação e trabalho. Meu cenário idealizado de aposentada, magra e feliz, caminhando, viajando, curtindo, não se confirmou e veio a decepção.
Ano passado eu resolvi dar um basta. Queria emagrecer pelo menos uns 4 kg por mês e chegar magra no fim de ano. Desta vez tive atitude e determinação mas só consegui emagrecer 2 kg por mês e este processo me trouxe muitas alegrias, muitas decepções e muitos aprendizados.
Nossas expectativas e esperanças dependem do grau de nossa dedicação para alcançá-las e também dependem de fatores externos e de outras pessoas. Não temos controle sobre tudo, temos que pensar diferente. Aceitar os desvios de rota, aceitar a demora, o tempo, o inesperado, as diferenças, as resistências.
Fica a reflexão de como encontrar uma maneira em equilibrar as expectativas para evitar as frustrações. A vida não é linear, nem o trabalho, nem o emagrecimento, nem a capacidade física. É preciso aceitar o imprevisível, as pessoas, as circunstâncias. Temos que equilibrar as expectativas, ter flexibilidade. Ter a esperança de que nossas expectativas sejam verdadeiras sabendo que também dependem muito do nosso esforço.
Agora tenho a expectativa de melhorar minha saúde e minha mobilidade para poder viajar, continuar morando sozinha e quem sabe morar num lugar melhor. Isso só vai acontecer se eu me dedicar, tiver foco. É trabalho duro e dedicação. Depende essencialmente de mim. Terei resistências internas e externas. Preciso manter a constância, não desistir.
Assumir o protagonismo da minha vida, a responsabilidade das minhas ações e também as suas consequências é essencial. É muito fácil colocar a culpa no azar, no passado difícil, nas atitudes dos outros, na falta de tempo, de dinheiro, na idade ou em tantas outras desculpas, sem analisar se eu fiz tudo que podia para alcançar meus sonhos.
Sou uma mulher com esperanças e expectativas. Uma sonhadora dedicada e realista.
domingo, 19 de janeiro de 2025
A VIDA É BELA, UMA REFLEXÃO SOBRE A DEPRESSÃO
Em 2014 eu tive uma das piores doenças da mente: a depressão. Naquele ano, fui ao médico para tratar da obesidade e voltei com uma sacola cheia de remédios e esperanças. Em poucos meses emagreci, perdi muito peso e também perdi toda alegria de viver. Eu era muito triste e magra.
Pensamentos muito obscuros povoavam minha mente e a vida ficou difícil de ser vivida. A vida ficou preta, escura, sem sentido, sem motivo. O choro corria solto a qualquer momento. O medo de tudo me percorria dia e noite. |Medo das pessoas, medo de viver, medo de morrer, medo de mim mesma. Até medo de dormir eu tinha e só dormia com uso de remédios. Eu não queria sair do portão para fora. Depois eu não queria nem sair de dentro de casa e, por fim, nem do quarto e nem da cama eu queria sair mais. Era um sacrifício enorme levantar todos os dias, tudo era dificil. Eu queria muito acabar com aquele sofrimento, nem que pra isso precisasse acabar com a minha vida.
Tive que ser mais forte do que minha tristeza para procurar ajuda. Foram muitas idas em psiquiatra, muita terapia com psicóloga e muitos antidepressivos. Dois anos de muita luta para sair daquele estado depressivo. A névoa foi se dissipando aos poucos e a vida voltou a fazer sentido. Muito lentamente fui me sentindo mais forte, comecei a ter sonhos e fazer planos, enquanto engordava todos os quilos perdidos.
Não sei se foi o remédio para emagrecer que me causou depressão ou se foram acontecimentos ruins ou a soma de tudo. Foi muita luta para sair da depressão. Eu não tinha motivos fortes para tanta tristeza e não me conformava com aquela situação. eu não queria aquilo pra mim. Só que era mais forte que eu.
Depressão não tem cura. Ela está aqui, dentro de mim, dormindo. É uma luta constante para que ela não acorde e invada todo meu ser. Hoje em dia, quando fico triste, já procuro mudar meu estado de espírito, ouvindo uma música, rezando, assistindo uma comédia, escrevendo, pintando, indo caminhar na praia... Ocupo meu tempo com coisas que eu gosto de fazer. Me comprometo em sair todos os dias de casa para caminhar, ir ao pilates, ao curso de pintura e agora academia. Nunca mais quero me afundar no poço da tristeza. É sempre um orai e vigiai. Qualquer coisa pode desencadear o estado depressivo e eu preciso ficar atenta e não deixar que essa névoa habite minha mente novamente.
Há dois anos, eu me vi sozinha nesta cidade, pois minha filha voltou a morar no sítio. eu me senti invadida pela solidão e tristeza. Ela nem foi pra tão longe, mas já não estava tão perto. Tomei uma atitude: aumentei os dias de pilates e do curso de pintura, voltei a estudar e estou fazendo minha terceira faculdade. Voltar a estudar me trouxe mais ânimo e mais alegria. Um sentimento de capacidade muito grande e de orgulho em voltar a estudar depois de aposentada. Também evito pensamentos negativos e dou uma de Poliana procurando sempre ver o lado bom de tudo.
E assim, sigo a vida nesta busca constante de estar em paz e feliz com a vida, porque a vida é bela e vale a pena ser vivida.
domingo, 12 de janeiro de 2025
Escolhas
Hoje, ao acordar, pensei: "como é bom morar sozinha."
Acordo, não sou acordada.
Faço o café pra mim, ou não.
Ligo a TV, escolho o que assistir ou fico em silêncio ou escuto músicas que eu gosto.
Planejo o meu domingo com o que eu tenho vontade de fazer ou fico sem fazer nada.
Não preciso me preocupar com o café que o outro gosta, com a música ou programa de TV que talvez não agrade a outra pessoa, não preciso fazer um programa dominical que a outra pessoa escolheu, posso fazer todas as escolhas sozinhas.
Por outro lado, não tem aquele cafuné no cabelo ao acordar, não tem ninguém para dizer bom dia, não tem café da manhã na cama, não tem conversa gostosa, com aquele café demorado na mesa, não tem sentar juntinho para assistir um filme e comer pipoca, não tem passeio de mãos dadas, não tem planos de viagens futuras, não tem cuidar do jardim juntos.
Lembrei-me de minha mãe, que morou sozinha por mais de vinte anos e nunca reclamou. Tinha como companhia muitos livros, os passeios e viagens.
Esta semana estou pesquisando máquinas de lavar roupas. Não tenho alguém do meu lado para ajudar na escolha, para comprar, para pagar, para tirar a máquina velha e instalar a nova. Sou só eu. É ruim sim, mas também dá a sensação de empoderamento.
É bom morar sozinha é bom morar junto. É difícil morar sozinha é difícil morar junto.
Eu escolhi o meu difícil e me mantenho fiel a essa escolha. Não sei se será para sempre. Eu espero que sim.
É difícil morar sozinha e ser a única responsável pelas minhas escolhas, é solitário, é silencioso, mas é apaziguador, é calmo, é tranquilo, é bom.




